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O SORRISO DE RICHARD

Clóvis Massaúd da Silveira

Impiedosamente o monitor registrava uma freqüência não inferior a duzentos e oitenta batimentos por minuto. Inerte, com os fios conectados no tórax e no monitor, Richard parecia não sentir a gravidade do momento. Sua oxigenação deficiente e pressão sangüínea perigosamente densa levavam-no a uma espécie de semi-inconsciência . Simplesmente não tinha noção do que se passava em seu frágil e claudicante corpo.

O sibilar do monitor era apenas suplantado pela determinação contida na voz dos médicos que o assistiam:

- Vamos aplicar mais 5 mg de Dilacoron.

- Novamente? Esta será o quarto em menos de uma hora - comentou o médico R2.

- Precisamos reverter essa freqüência - insistiu o intensivista

- Temos que evitar que o coração fibrile.

- Vamos tentar, outra vez, uma manobra vagal? - perguntou o médico R2.

- Está bem. Dessa vez vamos massagear lentamente as pálpebras. Fica atento para uma possível parada cardíaca - concluiu o intensivista.

Dentro do hospital, na sala de espera da emergência, Clayton e Natacha quedavam-se em silêncio. Não conversavam. De mãos dadas, olhar perdido na imensidão de um vácuo assustador, a palavra - o verbo - era desnecessária para que se entendessem.

Natacha cerrou os olhos e direcionou, intencionalmente, seus pensamentos para o filho. Não era a primeira vez que Richard era internado gravemente. Esse acontecimento já virara rotina. Lamentável rotina. Sabia que seria mais uma noite de angústias e expectativas. Todavia, Clayton estava a seu lado. Juntos adquiriram uma força maior contra as dores do infortúnio. O amor de ambos elevava-se mais diretamente a Deus, como se o fervor de apenas um dos dois não conseguisse atingir o Criador. Sempre estiveram juntos! Em ocasiões como essa não comentavam nada. Nem nada perguntavam. Apenas, de mãos dadas, ficavam com o pensamento fixado, determinado, obstinado em Deus e Richard. Em Richard e Deus. Jamais, ela ou Clayton, em momento algum questionaram os desígnios do Senhor. Perguntas como: "por que nosso filho, Senhor?", nunca foram pronunciadas, se quer pensadas, por nenhum deles.

- A manobra não está dando resultado, Doutor. Não quer reverter - sentenciou o médico R2.

- Vamos diluir o Dilacoron. Verifica novamente os lábios e a ponta dos dedos. Estão cianosados ? - inquiriu o intensivista.

- Doutor, creio que está fazendo wolf. - E gritando: - Enfermeira, vem cá depressa ! Prepara o desfribilador!

As constantes internações de Richard tinham enrijecido a ambos - continuou pensando Natacha - Porém, nesses momentos é que o eterno sorriso do filho se avivava mais em sua retina. Alegre, descontraído, brincalhão, Richard vivia sorrindo como se fosse o florir de uma primavera constante. Sem rupturas, sem fragmentações. Nos momentos de crise, ainda assim ele sorria. Deus o tolhera de uma saúde consistente, mas o adotara de uma força interior ímpar para seus tenros sete anos de idade.

Desesperar. Desespero. Noites indormidas. Incertezas - continuou a meditar Natacha - eram situações comuns na vida de ambos. Mas a fé e o amor tinham-se sedimentado num sentimento muito forte, o qual somente se rendia à vontade do Senhor. As múltiplas nuances da dor resultaram numa simbiose, oriunda da própria dor e do amor, que mortal algum poderia seccionar. Embora resignada, Natacha sabia que Clayton, ultimamente, começara a demonstrar sintomas de desalento. Por vezes, à noite, acordava com o choro do marido. Sentia que, na aparência externa de homem forte, refugiava-se um sentimento mais débil, mais vulnerável. Temia que, se Clayton desmoronasse, ela não tivesse forças suficientes. Mas restava a iluminação divina. Nesses momentos o apego a Deus era mais intenso. Mais dramático. Como se a reflexão fosse mais contundentes nos momentos de aflição.

- Natacha - falou tremulamente Clayton - o Dr. Paul (intensivista) vem vindo.

- Não estou gostando de sua expressão. Dr. ! como está Richard ? ....

- Por favor, não vamos desesperar - interrompeu o médico. - Sentem-se - prosseguiu - a situação não está sob controle, temo que poderá ficar irreversível. Vim avisá-los de que mandei chamar o Dr. Clarence. Deverá chegar a qualquer momento. Qualquer alteração no quadro avisarei de imediato - Dirigindo-se para a emergência, concluiu:

- Procurem ficar calmos.

- Calmo ! - gritou Clayton - como ficar calmo?

- Por favor, paizinho - intercedeu Natacha - Não desespera. Vem cá, vamos rezar juntos.

Clayton e Natacha postaram-se em frente a um crucifixo afixado numa das paredes da sala de espera e começaram a rezar. Parecia uma eternidade.

Cinco minutos após, Dr. Paul e seu assistente R2, alegremente vieram ao encontro deles.

- Reverteu a crise. Não sei como! O fato é que a fase aguda já passou. A freqüência está na faixa de noventa batimentos por minuto - falou Dr. Paul - agora nos resta mantê-la nesse nível. Quando retornei à emergência, após ter conversado com os senhores - prosseguiu- os batimentos começaram a cair, até estabilizar nos noventa. Não realizei nenhum novo procedimento. Não sei como aconteceu. Felizmente aconteceu.

Clayton e Natacha entrelaçaram fortemente as mãos, rapidamente volveram-se para o crucifixo, como agradecer, e foram em direção à emergência, onde um dos mais belos sorrisos os aguardava.

O sorriso de Richard.

Brasília, abril de 1985


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