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OS TREZENTOS DE ESPARTA? NÃO! OS DEZ DO CHUY

*Clóvis Massaúd da Silveira

 

O vento, vindo do mar, batia de encontro aos montes de areia formando uma espiral que subia uns vinte metros acima das dunas. Essas, próximas da praia, estendiam-se por trinta quilômetros ao longo da orla marítima. Eram dunas baixas, oscilando entre dez e quinze metros de altura. Por sua latitude, e por estarem coladas ao mar, o frio no inverno ali era intenso e vez por outra prolongava-se até os meses de outubro e novembro. Chuy, ponto extremo sul do Brasil, apresentava no litoral essa característica. A fronteira com o Chuy uruguaio era delimitada pelo arroio do mesmo nome. Isso na Vila da Praia, pois, na Vila Central, distante aproximadamente 18 quilômetros, a zona divisória era constituída por uma avenida. As vilas do Chuy, quer brasileira, quer uruguaia, eram uma massa compacta de construções. A avenida na Vila central, corria no sentido perpendicular ao mar. No Chuy uruguaio, os turistas podiam se deliciar ao visitarem o Forte São Miguel. Uma construção portuguesa do século XVII. Toda de pedra, simetricamente delineada, localizada no alto do morro de São Miguel, servia, também, para o visitante ceder, ainda que momentaneamente, à reflexão. Aqueles homens, soldados del Rey, distantes meses a fio, em viagem por um oceano bravio, de sua pátria, permaneciam por anos como sentinelas avançados da Coroa Lusa e , vez por outra, Hispânica. Quantos morreram longe do seu lar, de suas famílias, ao lutarem contra seus inimigos europeus e principalmente contra índios charruas, célebres por suas habilidades de cavaleiros?

A vila do Chuy era calma, serena, os habitantes orientais e brasileiros daquela terra comungavam numa irmandade tipicamente regional. Todos eram amigos, ou no mínimo companheiros. Filhos de uruguaios estudavam em colégios brasileiros e vice-versa. A língua era um misto de espanhol e português que resultava no que se resolveu denominar de "portunhol". O único cinema da localidade ficava no lado oriental. Por outro lado, os "bailões" era mais comum acontecerem no lado brasileiro. Viviam bem. A paz e a harmonia eram a tônica daquele lugarejo bem distante da linha do Equador. Até 1964...

Já na Vila do Chuy, localizada na praia, o acesso aos dois países era através de barco ou de uma ponte de madeira, com aproximadamente 80 metros de comprimento, que cortava o arroio. Esse arroio, cuja foz apresentava uma peculiaridade movediça, era em definitivo o que distinguia, dentro do Direito Internacional, "o meu do teu". A foz do arroio não era estática. No decorrer do ano ela se deslocava de um ponto ao outro, num movimento de quase um quilômetro. O visitante, que, em janeiro, a visitasse, verificaria que ela estava num determinado lugar. Porém, caso o mesmo visitante retornasse em junho/julho, constataria que estava a uns novecentos metros do lugar original. Era, e é, uma anomalia geográfica interessante de se observar. Esses deslocamentos geravam uma discussão sobre o ponto exato da divisa da fronteira. Não para os habitantes daquela zona, mas para as Chancelarias dos dois países.

Chuy, tanto na vila central como a vila da praia, tinha sua economia permeada entre cultura do arroz, a pesca e o turismo. O turismo, no verão, revelava-se uma boa fonte de renda, embora até aquela época, não houvesse uma infra-estrutura adequada para promovê-lo. A vila da praia, com a população fixa insignificante, tinha suas casas espalhadas numa planície drenada pelo arroio e seus vertedouros. Essa população de baixo poder aquisitivo vivia em função de uma pesca de subsistência, do corte de arroz nas granjas do Município de Santa Vitória do Palmar, do qual o distrito de Chuy fazia parte, e do que o mar jogava à praia. Os destroços de navios e de pequenas embarcações que eram tragados pelo mar, serviam, ao beijarem as areias da praia, como meio de vida para aquela população. Jamais consegui imaginar o produto final de pedaços de madeira, lonas, latas etc... E assim vivia Chuy, tanto na Vila Central como na Vila da Praia, em 1964. E assim o encontrei em outubro de 1964, primeira vez em que lá estive.

Com o Golpe de Estado desfechado nos idos de março de 1964, nosso Regimento, o 9º de Infantaria, sediado em Pelotas, cidade distante 220 quilômetros de Santa Vitória do Palmar , e 245 da Vila do Chuy, deslocou para a zona de fronteira, ponto extremo sul do Brasil, uma companhia de infantes. Esses homens passavam trinta dias e eram substituídos por novo grupo. Em assim sendo, no mês de outubro daquele ano, minha companhia foi deslocada. Em verdade não era minha companhia, eu pertencia à de Canhões Anti-carro, porém minha integração aos infantes fora solicitada pelo Comandante do Batalhão, Major Cid Scarone Vieira, alegando que, além dos oficiais, eu era o único que estava cursando faculdade.

A companhia tinha um efetivo de cem homens: dois oficiais subalternos, um subtenente, seis sargentos, oito cabos e oitenta e sete soldados. O PC - posto de comando - fixou-se na Vila Central, distante uns 18 quilômetros da Vila da Praia. Nosso GC - grupo de combate - foi deslocado para a praia, onde está localizado o Farol do Chuy. Éramos dez homens. O Sargento Renault, comandante do GC, eu, como cabo, e mais oito soldados. Nosso armamento era constituído por duas metralhadoras de mão, calibre 45-INA, dois revólveres também calibre 45 e oito mosquetões, fabricados em 1908 e que ainda integravam o grosso da tropa do exército brasileiro. A munição fora fabricada em 1952.

Ficamos instalados numa cabana de madeira, bem construída, que nos agasalhava do frio intenso. A alimentação era servida no Hotel da Vila. Lugar aprazível, ajardinado e com amplo salão para refeições, as quais eram fartas e saborosas, embora o peixe se fizesse presente todos os dias. As acomodações eram rústicas, todavia higiênicas.

Nosso comandante, Tenente João Alberto DUTRA, oriundo da Academia Militar das Agulhas Negras, era o que se poderia denominar de bom oficial. Sério, inteligente, por vezes duro em suas determinações, sabia o que fazer e era fundamentalmente um homem justo. E isso o tornava, de certa forma, benquisto pela tropa. Raramente sorria. O que não invalidava nosso posicionamento. Dedicava-me certa atenção. Creio que por ser um dos poucos que cursava faculdade e que sustentava uma discussão sobre Geopolítica e Ciência Política. Às vezes, ficávamos horas a fio falando sobre o contexto político e geopolitico latino- americano. Na época, eu sequer imaginava que faria mestrado em Geopolítica e Desenvolvimento Econômico e doutorado em Planejamento Estratégico, ainda assim, devorava os poucos livros sobre o assunto que me caíam nas mãos.

Com o sargento Renault, e não é nada pessoal, o assunto era menos denso. Homem não chegado a leitura, seu tema predileto era o futebol. Não estou desprestigiando o Renault, ao contrário, gostava dele, embora sua frase predileta - "estás perdendo tempo na faculdade, cabo Massaúd, faz um curso de sargento e estarás feito pro resto da vida" , não soasse bem em meus ouvidos. Não entendia como alguém podia desestimular uma pessoa a interromper sua faculdade.

Os dias corriam tranqüilos. Pela manhã, a alvorada era as sete horas. Higiene, café (farto e gostoso), preleção de cinco minutos aos soldados e uma caminhada (eu e Renault) pelas dunas e orla marítima. As dez horas retornávamos. O sargento e os soldados jogavam carta ou sinuca. Eu preferia ficar sentado nos jardins do Hotel, lendo. Ao meio dia almoçávamos. Após a "sesta", escrevia para minha baixinha (Nelma). Estávamos casados há um ano e dois meses. As cartas corriam pela estrada "Santa Vitória - Pelotas" diariamente. Sempre fui um tanto quanto romanesco e nutria por ela a mesma intensidade de amor que nutro hoje. Gosto de escrever e acredito ser a melhor forma de expressar-me. Entendo que minhas mais ternas cartas de amor foram escritas naquela ocasião. Não sei, tenho receio de comensurar erroneamente. A realidade é que, independentemente da saudade, a vida corria tranqüila. Embora o Governo Revolucionário nos deixasse tenso com os boatos de que Brizola deveria atacar a qualquer momento. E pelo Chuy. Na época, o nome de Brizola era um temor. Apavorava todo mundo. Fora isso e agüentar o Renault dizer que "a corrente marítima do Peru corria pelo Atlântico no sentido Linha do Equador-Pólo-Sul", não tínhamos aborrecimentos. Até que ...

Certa noite, se não me engano a vinte de outubro, aproximadamente às vinte e duas horas, estávamos nos preparando para dormir, quando o tenente Dutra e o sargento Conceição (balanqueiro como só ele) entraram afobados pela porta da cabana:

- Renault, Massaúd - falou o tenente com certa angústia na voz - o Brizola vai atacar esta madrugada. Consta que tem um efetivo de trezentos homens fortemente armados. E virá pela ponte do Arroio Chuy.

- Bem! Gaguejou o sargento Renault - nosso efetivo é de cem homens. Não vai ser fácil tenente!

- Cem homens! Que cem homens? - inquiriu o oficial. - Vocês ficarão apenas com o Grupo de Combate. Não posso deslocar meu pessoal para cá, pois na eventualidade do ataque ser pela Vila Central, terei condições de enfrentá-los. Trouxe uma metralhadora ponto 50 e um Lança-Rojão.

- Lança-Rojão? O Brizola vem de tanque? - perguntei.

- Não é nada disso, cabo - corrigiu o tenente - é que não tenho outro tipo de armamento.

- Está certo, tenente - interpelou o sargento Renault. - Vamos dar uns tiros de bazuca no lado uruguaio e ...

- Criar um problema internacional? - contrapus.

- Está correto, Massaúd - observou o Dutra. - Temos que ter cuidado para não gerar problemas dessa natureza. A propósito, nosso sistema de comunicações está com defeito. Não consegui me comunicar com Pelotas. Despachei um jipe com mensageiro explicitando nossa situação. As estradas estão péssimas. Na melhor das hipóteses teremos reforços em vinte e quatro horas.

Dito isto o tenente foi embora para a Vila Central.

- Até parece que somos Leônidas no desfiladeiro das Termópilas - falei ao sargento Renault.

- Que Leônidas? Que lugar é este de que falaste? Onde fica? - inquiriu Renault.

- Não é nada. Estou só pensando em voz alta - respondi.

Foi um pânico. Realmente ficamos apavorados. Éramos dez e teríamos que enfrentar trezentos. Estávamos a 245 quilômetros de casa, com frio, mal armados e dos dez que ali se encontravam, nove sequer sabiam por que morreriam. O "um" restante sabia o motivo. Mas não estava a fim de morrer. Ao menos na juventude de seus vinte e dois anos. Ainda que por uma causa justa (naquela época! Depois foi o que se viu...).

Passamos a noite de "olho duro" voltado para o arroio. Fixamos nossa metralhadora em direção a uma elevação que antecipava a descida da ponte, pelo lado uruguaio. O lança-rojão deixamos em semi prontidão. Ninguém fumava. As palavras eram sussurradas. Preocupamo-nos tanto com a ponte que não notamos um caminhão, de faróis apagados, vindo em nossa direção pela estrada situada no lado brasileiro, à nossa retaguarda. Imaginamos que barulho do motor brotava do lado oriental. Eram quatro horas da manhã. Ficamos atônitos com o ranger dos freios do caminhão, a uns cinqüenta metros atrás de nós. O motorista travara para evitar um deslocamento brusco na descida rumo à ponte. Concluímos erronea e precipitadamente que o caminhão ia passar para o lado uruguaio, levando armamento para Brizola.

- Alto lá! Alto lá! - gritou o sargento para o motorista, na expectativa de intimidá-lo e não demonstrar nosso pavor momentâneo, ao mesmo tempo em que cercávamos o caminhão.

- Desce logo! - gritei. - E com as mãos sobre a cabeça!

O motorista desceu. Com alivio verificamos que estava mais assustado que nós. Disse-nos que era brasileiro casado com uma castelhana. E estava levando mariscos para o lado uruguaio. Não acreditamos. Prendemos o caminhão e o motorista.

Ao amanhecer, eu e mais dois soldados levamos o preso, juntamente com o caminhão, para o posto de Comando na Vila Central. Lá chegando, após relatar o ocorrido ao tenente, e cumprindo uma ordem dele, obrigamos o motorista a descarregar o caminhão. Prenderíamos ali o armamento cujo destino presumíamos ser Brizola. Era marisco! Era unicamente marisco, o meio de sobrevivência daquele patrício, que se conteve para não brigar conosco ao ver seu marisco todo desperdiçado, jogado ao chão, e ouvir um lacônico: "Desculpe-nos"! O tenente Dutra, a fim de não desmoralizar totalmente nossa ação, ainda sentenciou:

- Podes ir embora, mas da próxima vez vais ficar preso. O que estás fazendo é contrabando. São divisas do país que estão escoando ilegalmente.

E o Brizola?

Bem, o Brizola não apareceu.

Anos mais tarde, aqui em Brasília, ao encontrar um coronel, na época capitão do 9º RI, fiquei sabendo que naqueles dias Brizola, de fato, entrara no Brasil, via Rio Branco/ Jaguarão. Não foi visto entrar. Nem entrar nem sair. Pois estava vestindo o hábito de um padre capuchinho.

 

Brasília, período das chuvas de 1985


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