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OS PORRES DO RABINO ISAAC

Simon Brikstein era um rapaz sério. Inteligente. Possuidor de excelente formação acadêmica. Bem situado, herdeiro de uma fortuna sem precedentes na região e... judeu. Pois Brik, corruptela com que ficara conhecido, era alvo dos olhares das raparigas locais. “Bom partido” diziam umas. Outras rimavam: “é um rapaz perfeito, sem nenhum defeito”. Louras, morenas, altas, baixas, gordas, magras, boas e bofes, todas, sem exceção, aspiravam a seu amor. Bem, não necessariamente a seu amor, mas fundamentalmente a sua fortuna. Todas não! Havia uma exceção. Única, honrosa e incompreendida exceção: Margot, filha do velho Mustafá, dono da loja de tecidos sugestivamente denominada de “O Muçulmano Honesto”. 

Pois bem, nem Margot, nem sua família jamais revelaram o motivo do rompimento do noivado, justamente uma semana antes do casamento. Como, em verdade, também ninguém sabia onde Mustafá tinha arranjado dinheiro, exatamente duas semanas após a data prevista para o casamento, para remodelar sua loja, comprar casa própria à vista, trocar de carro e renovar seu estoque de fazendas. “Herrança de parrente que morrer no Palestina”, dizia o velho árabe.

Embora Judeu, freqüentando Sinagoga, com circuncisão e tudo, Brik não gostava de Issac, o mais velho dos Rabinos da cidade. Certo dia, após voltar do escritório do pai, onde gerenciava projetos de investimentos de sua Empresa para o exterior, o judeuzinho, desgostoso, resolvera chegar na casa de Yuri. Queria aconselhar-se pois sentia-se perturbado. Não sabia mais distinguir a variável correta, para nortear sua vida. Embora moço e rico, Brik já tinha problemas existenciais.

- Yuri – iniciou aflitivamente o judeuzinho – não sei o que fazer. Estou com vontade de passar uns dois anos em Israel, só assim poderei amenizar esta angústia que me acompanha desde a infância.

- Achas que é a melhor das soluções? – inquiriu Yuri, e prosseguiu: - O simples fato de saíres daqui irá resolver teus problemas? Ou o medo de descobrirem teu segredo é que te inquieta?

- Na verdade não sei – recomeçou Brik ao mesmo tempo em que, aproximando-se do bar, situado a um canto da sala de estar do amigo, serviu-se de uma dose dupla de Scoth, fitando vagamente o espaço, para após sorvê-lo de uma só vez. Como se o Whisky fosse afastá-lo das angústias. Após, permaneceu estático e absorto em seus pensamentos.

- Brik! Brik! – interrompeu o jovem rabino Yuri. – Senta-te, vamos raciocinar e a partir daí racionalizar a questão. Teu problema é sério, apenas compartilhado por ti, teus pais, eu, o Rabino Isaac e.....................

- Chega! Interpelo Brik. – Chega! Vamos direto ao assunto. Que poderei fazer para acabar com esse suplicio? Até agora a medicina não apresentou nenhum tipo de cirurgia ou implante que possa ajudar-me. Sabes muito bem que, se a gentalha desta terra souber de minha condição, estarei desmoralizado. Percepções várias correrão de boca em boca. Minha vida profissional implodirá e a afetiva ruirá de uma vez por todas. Sinto muito, Yuri! – prosseguiu – mas não tenho estrutura psíquica para suportar um desgaste dessa natureza. Estou desorientado. À beira do desespero. – Dito isso, Brik levantou-se e novamente dirigiu-se ao bar. Ao levar o copo aos lábios, seu gesto foi gentilmente interrompido pelo Rabino, que carinhosamente lhe disse:

- Ouve bem! Sou teu melhor amigo e, em breve, quando casar com Sulamita, serei teu cunhado. A bebida não me parece a melhor saída. Queres tornar-te um segundo Rabino Isaac? – Yuri abraçou ternamente Brik e prosseguiu: - A bebida dar-te-á mais força para enfrentares a situação? Não, caro amigo! Não! Sabemos realmente que teu segredo deverá manter-se em sigilo. Olha! – exclamou Yuri no momento em que colocava a palma da mão na testa – creio que tua idéia de ir para Israel é válida. Precisamos, todavia, organizar essa viagem de modo a aparentar negócios da empresa. Ou que pretendes aprimorar teus estudos, visando a tua ascensão à presidência da organização da família. Teu pai, em cinco anos, pretende se retirar dos negócios. Sim! – complementou o rabino, agora em tom de voz mais seguro – parece-me ser a alternativa mais viável. Que achas?

- Está bem Yuri – comentou Brik aparentando um certo conformismo. – Vou providenciar para daqui a um mês meu embarque. Contudo, permanece a sensação de inquietude, de insegurança.

Brik despediu-se de Yuri e foi para sua casa. Ao passar em frente à loja de Mustafá, verificou que “Turco Salim”, uma espécie de caixeiro viajante, estava conversando com seu ex-futuro sogro. Uma sombra de angústia penetrou na sua mente.

Mustafá, eu no comprrende motivo de Margô no cazar com judeu rrico – ponderava Salim para o patrício.

- No te preocupes. Este assunto dizzerr respeito mia familhha – respondia um tanto irado Mustafá e prosseguia: - Eu no querrer comprar nada. Meu fregueze non tem dinhéro. Passar bem, Salim. Passar bem.

A Sinagoga estava repleta no Domingo. O jovem Rabino Yuri mais uma vez falaria da necessidade de a colônia Judaica local enviar mais recursos para Israel. O plano de fundo que justificava essas remessas era , como sempre, o perigo que o mundo árabe representava (como se o conglomerado financeiro judeu, espalhado pelo mundo afora, não fosse suficiente). A família Birkstein, pontuando no horário, sentava-se invariavelmente na primeira fila. Os demais sionistas, espalhados ao longo da Sinagoga, sabiam disso e aguardavam, com certa ironia, a manifestação do patriarca  da família, que invariavelmente perguntava, em voz alta e sonora, ao rabino, quando de sua solicitação de mais dinheiro para Israel:

- Quando teremos o retorno desse dinheiro? Desse jeito vou falir.

Por ocasião da pergunta, a atmosfera de fervor da Sinagoga transmutava-se. Sofria uma metamorfose que não saia, em segundos, do místico para a algazarra. Virava uma zorra. Contam os anti-sionistas que, do lado de for da Sinagoga, a Colônia árabe partia para a maior das gozações. Parecia que os “turcos” juntavam-se naquele local apenas para se divertirem com seus arqui-rivais e primos judeus. A contumácia dos árabes era repetida todos os domingos. Como rotina virara a chegada da policia ao local, para afastar os irreverentes muçulmanos da frente da Sinagoga.

Brik partiu. Seus pais respiraram mais aliviados. O segredo do filho seria mantido, mesmo porque Mustafá recebera, dois dias antes de partida do judeuzinho rico, a última parcela do acordo...

Porém, ninguém contava com o porre, e seus efeitos, que o velho rabino Isaac tomaria.

Domingo. Sinagoga lotadinha. Judeus por tudo que era canto. Afinal há mais de um mês que Isaac não realiza o oficio. O velho rabino a meia guampa (bêbado) resolveu fazer a distância, uma homenagem a Brik:

- .................. embora em terras longínquas, quero, num derradeiro sentimento de contrição, pedir desculpas ao jovem Brik. – E como se estivesse pessoalmente frente a frente com o rapaz, complementou:

- Não sei o que houve naquele dia. Naquele distante e nefasto dia. Por ocasião da  circuncisão, errei o local e cortei o lugar impróprio. Perdoa-me Brik! Perdoa-me! Perdoa-me por ter-te castrado...

O silêncio foi total, quebrado apenas pelos gritos do patriarca da família Brikstein:

- Rabino bêbado. Desgraçado! E ainda paguei ao Mustafá para ficar calado.


Clóvis Massaúd
Brasília,
início do período das chuvas de 1985


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