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Pois bem, nem Margot, nem sua família jamais revelaram o motivo do rompimento do noivado, justamente uma semana antes do casamento. Como, em verdade, também ninguém sabia onde Mustafá tinha arranjado dinheiro, exatamente duas semanas após a data prevista para o casamento, para remodelar sua loja, comprar casa própria à vista, trocar de carro e renovar seu estoque de fazendas. “Herrança de parrente que morrer no Palestina”, dizia o velho árabe. Embora Judeu, freqüentando Sinagoga, com circuncisão e tudo, Brik não gostava de Issac, o mais velho dos Rabinos da cidade. Certo dia, após voltar do escritório do pai, onde gerenciava projetos de investimentos de sua Empresa para o exterior, o judeuzinho, desgostoso, resolvera chegar na casa de Yuri. Queria aconselhar-se pois sentia-se perturbado. Não sabia mais distinguir a variável correta, para nortear sua vida. Embora moço e rico, Brik já tinha problemas existenciais. - Yuri – iniciou aflitivamente o judeuzinho – não sei o que fazer. Estou com vontade de passar uns dois anos em Israel, só assim poderei amenizar esta angústia que me acompanha desde a infância. - Achas que é a melhor das soluções? – inquiriu Yuri, e prosseguiu: - O simples fato de saíres daqui irá resolver teus problemas? Ou o medo de descobrirem teu segredo é que te inquieta? - Na verdade não sei – recomeçou Brik ao mesmo tempo em que, aproximando-se do bar, situado a um canto da sala de estar do amigo, serviu-se de uma dose dupla de Scoth, fitando vagamente o espaço, para após sorvê-lo de uma só vez. Como se o Whisky fosse afastá-lo das angústias. Após, permaneceu estático e absorto em seus pensamentos. - Brik! Brik! – interrompeu o jovem rabino Yuri. – Senta-te, vamos raciocinar e a partir daí racionalizar a questão. Teu problema é sério, apenas compartilhado por ti, teus pais, eu, o Rabino Isaac e..................... - Chega! Interpelo Brik. – Chega! Vamos direto ao assunto. Que poderei fazer para acabar com esse suplicio? Até agora a medicina não apresentou nenhum tipo de cirurgia ou implante que possa ajudar-me. Sabes muito bem que, se a gentalha desta terra souber de minha condição, estarei desmoralizado. Percepções várias correrão de boca em boca. Minha vida profissional implodirá e a afetiva ruirá de uma vez por todas. Sinto muito, Yuri! – prosseguiu – mas não tenho estrutura psíquica para suportar um desgaste dessa natureza. Estou desorientado. À beira do desespero. – Dito isso, Brik levantou-se e novamente dirigiu-se ao bar. Ao levar o copo aos lábios, seu gesto foi gentilmente interrompido pelo Rabino, que carinhosamente lhe disse: - Ouve bem! Sou teu melhor amigo e, em breve, quando casar com Sulamita, serei teu cunhado. A bebida não me parece a melhor saída. Queres tornar-te um segundo Rabino Isaac? – Yuri abraçou ternamente Brik e prosseguiu: - A bebida dar-te-á mais força para enfrentares a situação? Não, caro amigo! Não! Sabemos realmente que teu segredo deverá manter-se em sigilo. Olha! – exclamou Yuri no momento em que colocava a palma da mão na testa – creio que tua idéia de ir para Israel é válida. Precisamos, todavia, organizar essa viagem de modo a aparentar negócios da empresa. Ou que pretendes aprimorar teus estudos, visando a tua ascensão à presidência da organização da família. Teu pai, em cinco anos, pretende se retirar dos negócios. Sim! – complementou o rabino, agora em tom de voz mais seguro – parece-me ser a alternativa mais viável. Que achas? - Está bem Yuri – comentou Brik aparentando um certo conformismo. – Vou providenciar para daqui a um mês meu embarque. Contudo, permanece a sensação de inquietude, de insegurança. Brik despediu-se de Yuri e foi para sua casa. Ao passar em frente à loja de Mustafá, verificou que “Turco Salim”, uma espécie de caixeiro viajante, estava conversando com seu ex-futuro sogro. Uma sombra de angústia penetrou na sua mente. Mustafá, eu no comprrende motivo de Margô no cazar com judeu rrico – ponderava Salim para o patrício. - No te preocupes. Este assunto dizzerr respeito mia familhha – respondia um tanto irado Mustafá e prosseguia: - Eu no querrer comprar nada. Meu fregueze non tem dinhéro. Passar bem, Salim. Passar bem. A Sinagoga estava repleta no Domingo. O jovem Rabino Yuri mais uma vez falaria da necessidade de a colônia Judaica local enviar mais recursos para Israel. O plano de fundo que justificava essas remessas era , como sempre, o perigo que o mundo árabe representava (como se o conglomerado financeiro judeu, espalhado pelo mundo afora, não fosse suficiente). A família Birkstein, pontuando no horário, sentava-se invariavelmente na primeira fila. Os demais sionistas, espalhados ao longo da Sinagoga, sabiam disso e aguardavam, com certa ironia, a manifestação do patriarca da família, que invariavelmente perguntava, em voz alta e sonora, ao rabino, quando de sua solicitação de mais dinheiro para Israel: - Quando teremos o retorno desse dinheiro? Desse jeito vou falir. Por ocasião da pergunta, a atmosfera de fervor da Sinagoga transmutava-se. Sofria uma metamorfose que não saia, em segundos, do místico para a algazarra. Virava uma zorra. Contam os anti-sionistas que, do lado de for da Sinagoga, a Colônia árabe partia para a maior das gozações. Parecia que os “turcos” juntavam-se naquele local apenas para se divertirem com seus arqui-rivais e primos judeus. A contumácia dos árabes era repetida todos os domingos. Como rotina virara a chegada da policia ao local, para afastar os irreverentes muçulmanos da frente da Sinagoga. Brik partiu. Seus pais respiraram mais aliviados. O segredo do filho seria mantido, mesmo porque Mustafá recebera, dois dias antes de partida do judeuzinho rico, a última parcela do acordo... Porém, ninguém contava com o porre, e seus efeitos, que o velho rabino Isaac tomaria. Domingo. Sinagoga lotadinha. Judeus por tudo que era canto. Afinal há mais de um mês que Isaac não realiza o oficio. O velho rabino a meia guampa (bêbado) resolveu fazer a distância, uma homenagem a Brik: - .................. embora em terras longínquas, quero, num derradeiro sentimento de contrição, pedir desculpas ao jovem Brik. – E como se estivesse pessoalmente frente a frente com o rapaz, complementou: - Não sei o que houve naquele dia. Naquele distante e nefasto dia. Por ocasião da circuncisão, errei o local e cortei o lugar impróprio. Perdoa-me Brik! Perdoa-me! Perdoa-me por ter-te castrado... O silêncio foi total, quebrado apenas pelos gritos do patriarca da família Brikstein: - Rabino bêbado. Desgraçado! E ainda paguei ao Mustafá para ficar calado. Clóvis
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