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REENCONTRO COM O ELO PERDIDO

Nos confins do horizonte, o sol lentamente definhava, como a entregar-se aos braços de Morfeu. Em minutos, o dia transmutar-se-ia em noite. A noite surgiria com matizes aveludadamente cerúleos e levemente salpicada de prateado. Na magnitude do universo, esta cadenciada rotina -dia e noite, noite e dia- perdia-se na imensidão do infinito. Sua constância e terno repetir era simplesmente incomensurável. Era insignificante. A própria Lua, naquele momento, não quisera aparecer. Dela apenas se vislumbrava uma tênue, quase imperceptível nesga, como a bordar o azulado, levemente estrelado, do céu. Talvez a Lua não pretendesse iluminar os cabelos embranquecidos e o sofrido rosto de Tristão, em cuja face rolavam, melancolicamente, lágrimas que, ao caírem de seus olhos, encontravam-se com as turbulentas águas do mar. É possível que Ela, ao sentir a intensidade do amor que Tristão abrigava em seu peito, e ao vê-lo chorar a falta de sua amada, se tivesse aquietada, como solidária à maior das expressões daquele Ser.


         No mar, o navio aparentemente perdido, velozmente tentava alcançar seu destino...

Destino! Interessante o destino! - começou a pensar Tristão do alto do convés.

- Na minha juventude - prosseguiu pensando - meu pai me dissera que o "homem faz seu destino". Será verdade? E o que será a verdade? Por muito tempo acreditara que o homem fazia  seu próprio destino. Afinal seu pai dissera! E seu pai era sabedor de todas as coisas. Era seu pai! Que saudades! Que cálida nostalgia tinha de sua juventude! De sua adolescência! Quando as flores significavam apenas uma divinal beleza natural. Onde os espinhos dos roseirais eram, tão somente, um mecanismo de defesa de suas rosas.Onde o amor-perfeito era uma das mais belas flores. Os devaneios do primeiro amor! Do primeiro e único amor de sua vida! - Ah! Isolda! Isolda! Como sinto tua falta. Que momentos intensos de amor compartilhamos! Recordara-se que, ao ler Servidão Humana de Morgam, considerara Philip como o homem possuidor do mais intenso e significativo amor, embora Mildred não o correspondesse. Mas ele não. Amava e era amado. Sem sua Isolda o mundo não teria sentido. O poeta não precisaria existir. As flores poderiam murchar e morrer. O sol não precisaria acalentar o verde das pradarias. Os pássaros não precisariam gorjear. Enfim, nada teria sentido sem a presença enternecedora de Isolda. 

- Os devaneios de Tristão foram interrompidos por uma forte brisa, que, sussurando em seu ouvido e batendo-lhe no rosto, o despertara, acordando-o para a dura realidade da vida. Olhou para baixo e viu a escuridão do mar. Sempre tivera medo do mar, ma agora, naquele momento, vislumbrava-o como um repousário para seu sofrimento. Envolveu a cabeça num cachecol, para aquecê-la, e escreveu aquele que seria seu derradeiro poema:

 

I S O L D A *

Como esquecer-te?

Se a vida me legou

A tua imagem para sempre?

Como sorrir?

Se a mesma vida

É vã, é triste

E dilacera?

Como cantar?

Se a lágrima

Perpetuou a dor

No coração?

Como viver?

Se és a própria vida

Que um dia feneceu?

 

Após escrever, deixou-se, novamente , envolver-se por seus pensamentos, que, propositadamente, conduziram-no, de novo a sua juventude.

A imagem de sua mãe veio-lhe a mente. Parecia estar ouvindo sua voz, falando-lhe  da intensidade do amor. Da púrpurea doçura de amar. "Meu filho, a paixão é intensa, porém efêmera. O amor! Este sim! É eterno!" Não conseguira, na adolescência, distinguir um do outro. Ambos: amor e paixão, ora se conflitavam, ora se fundiam num só sentimento. Numa imagem só. A de Isolda. Seu amor paixão era intenso. Desvairado. Tresloucado. Mas era puro. Cristalino. Eterno. Agora, no ocaso da vida, sentia por Ela a mesma sensação que outrora, quando no frescor da juventude, a conhecera. 

Seus pensamentos foram interrompidos novamente pela brisa marítima. Acordando-o de seus sonhos. Despertando-o para a realidade. Momentaneamente teve a impressão de vê-la diante de si.

Impossível! Isolda morreu! Isolda não está mais comigo.

Compulsivamente aquela sensação de presença o envolvera novamente. Estendeu as Mãos para abraça-la, e nada. Apenas o vazio da noite. Da gélida e angustiante noite.

Apenas o desconforto da solidão. Um torpor passou-lhe pelo corpo, como a renegar Sua presença. Como a lancetar seu coração. Como a conceber sua morte.

Isolda? Onde estás, Isolda? - gritou Tristão. Nutro por ti o mesmo e intenso amor!

Onde  estás? Da morte nada sei! 

E Tristão emitiu um soluço. E o soluço multiplicou-se. E os soluços se transformaram em choro. E o choro em convulsão. Sentiu a imagem de Isolda lentamente desaparecer, até que uma névoa embaraçou seus olhos, turvando-os, ao mesmo tempo em que caindo no tombadilho, estrou em sono letárgico.

Pela manhã, ao encontrar nas mãos do passageiro morto um poema, o Comandante do navio agarrou-o. Após lê-lo, olhou para o infinito e chorou. Chorou e invejou aquele ser  que jazia inerte, a seu lado. E pensou:

"Enfim , ele fora ao encontro de Isolda. Enfim, ele fora ao Reencontro com o Elo Perdido ".

Poema ISOLDA, escrito em junho de 1958

Conto Reencontro com o Elo Perdido, escrito em Brasília em abril de 1985.

Clóvis Massaúd
Brasília,
início do período das chuvas de 1985


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