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VAZIO


Costumo dizer que escrever é um hábito. Bem, sendo um hábito, não há necessidade de inspiração. Entendo que, antes de mais nada, para se escrever, é mister ter-se idéias. São elas que, manipuladas com alguma técnica, podem transformar o abstrato no real e nos proporcionar os mais variados sentimentos. Todavia, há momentos em que, por mais esforço que se faça, as idéias não brotam em nossa mente. Como agora, neste exato momento, 4:00 horas da manhã. Por outro lado, vezes há em que afloram rápidas e simultâneas, gerando uma confusão que nos dificulta elegê-las, ordená-las e transcrevê-las. 

As idéias são peculiares. Em certas ocasiões são capciosas, ladinas, dando uma conotação dúbia àquilo que se pretende dizer. Em outras, tornam-se alegres, descontraídas, podendo ser, inclusive, irônicas ou simplesmente agradáveis. Porém, ocorrem situações em que elas são amargas, tristes, doloridas, direcionando quem as lê para melancolia. Temos, também, idéias portadoras de amor, de paixão, as quais, para maioria das pessoas, embevecem a alma.

A paixão e o amor são, talvez, sobre o que mais se escreveu ao longo da história da humanidade. É possível que muitos não se lembrem ou não saibam que Napoleão Bonaparte foi derrotado em Wellington, na batalha de Waterloo. Entretanto, a grande maioria sabe que, independente de Desirée, Josefina foi sua grande paixão. Outros não sabem quem foi William Shakespeare. Contudo, quem, desde criança, não ouviu falar de Romeu e Julieta?

O amor é capaz de proporcionar momentos de “agonia e êxtase”. Grande parte daqueles que leram sobre mitologia grega, são sabedores do cerco de Tróia e do amor entre Páris, Herói Troiano, e Helena, esposa do herói grego Menelau. Não obstante, o que muitos não sabem é que, após Tróia ser destruída pelos gregos e Helena ser levada para Atenas, Páris, mortalmente ferido, foi transportado até a casa de Eleonor, sua esposa troiana e, lá chegando, um emissário de Zeus disse que, se Eleonor o perdoasse, ele viveria. Embora amando-o loucamente, ela não o perdoou, tendo Páris morrido, instantaneamente, em  sua frente. Ao sentir que seu amado morrera, a raiva contida cedeu à força maior de seu amor pelo herói troiano e, arrependida por saber que o matara e sentindo seu eloqüente amor lancetado pelo remorso, suicidou-se.

O vazio persiste. Contudo não tendo idéias. Enquanto elas não chegam, vamos continuar escrevendo sem ordenamento prévio. Ah! Lembrei-me de um detalhe, de uma passagem que li em A Cidadela. Quando Andrew, após sentir que fora injusto com ... e recomeçar sua vida profissional e afetiva em função da mulher amada, perde, num acidente de trânsito, a esposa, que fora buscar queijo para ele, deixando-o esse fato arrependido e amargurado. Eis aí uma das ironias da vida. Que motivo induziu Cronin a matá-la? São liames dessa natureza que encontramos no cotidiano, quer na literatura, em prosa ou verso, quer na vida real. Digo repetidas vezes a meus filhos que é menos difícil escrever sobre a irreverência do que sobre o amor. Ao escrevermos sobre o amor, temos um compromisso mais sério, mais contundente: final feliz na estória ou terminá-la de maneira traumática? A dúvida é cruel. Caso terminemos um conto com final feliz, os leitores poderão pensar que somos demasiadamente etéreos. Não obstante, se concluirmos um conto de forma crucial, achar-nos-ão por demais estigmatizados. É difícil. Escrever não é o tanto, porém, finalizar é sempre uma incógnita. Dependendo do final, poderemos “acabar” com a estória. Matá-la. Deixá-la insossa, sem sabor.

O vazio continua. Ainda não consegui ordenar minhas idéias e escrever algo concreto, coerente, substancioso. O vazio ainda se faz presente. Não consigo concatenar um enredo plausível. Estou começando a ficar preocupado. Que faço? Sobre que escrevo? Tomo um Valium 10mg e vou dormir? Afinal, são cinco horas da manhã! Ou tento escrever sobre a irreverência, como a viagem do Grêmio Atlético Farroupilha, em 1975, a Uruguaiana em que o Coronel Poeta, ao pagar a conta do hotel e achá-la cara, deu uma de “Coronel do SNI”? Ou escrevo sobre o candidato a emprego, aqui em Brasília, o qual, ao concluir a entrevista com Chefe do Departamento de Recursos Humanos de uma estatal, recebeu um “não” sobre a possibilidade de empregar-se e um adendo que não seria contratado por seu curriculum ser bom demais? E isso poderia, seis meses após, ser motivo de dispensa do atual chefe, uma vez que o candidato era bem mais experiente que o próprio Chefe! Que dúvida! E as idéias não brotam. E Morfeu não quer acalentar-me.

São cinco horas e trinta minutos da madrugada. Resigno-me. Não tomarei o Valium. O sono ou ao menos uma idéia deverão surgir. Um dos dois aparecerá a qualquer momento.

Não tinha observado. O tic-tac do relógio é constante e quebra tenuemente o silêncio da madrugada. Só avança. Não retrocede. É como o trautear implacável do tempo. O trautear implacável do tempo? Uma estória poderia começar assim! Vamos tentar.

Além do trautear implacável do tempo, nada mais ouço. Lá fora, os ruídos da rua já se aquietaram. É madrugada. A mudez impera por sobre a cidade adormecida. Em meu quarto, com o coração voltado para ti, nada mais ouço. Fecho meus olhos e tua presença surge em minha retina. És lindo! És belo! Sinto que meu amor é cada vez mais intenso. Mais possessivo. Mais enlouquecedor. Mas que vejo? Agora não és apenas um? São dois? Não! São três! Sim! São três semblantes magnânimos que simultaneamente ocupam meus olhos. Povoam minha mente. Fazem transbordar meu coração. Serei irracional? Como poderei amar a três pessoas, todas intensamente, ao mesmo tempo?

Além do trautear implacável do tempo, o silêncio notívago foi levemente quebrado pelo cantar do galo. Levanto-me e olho pela janela. A escuridão da noite ainda se faz presente. A imagem de vocês persiste em mim. Mas continuo confuso. Como dividir meu coração, meus sentimento de amor por três? Como doar-me intensamente a vocês? Poderia alegar que amo um mais do que os outros. Todavia, não é verdade. Amo-os divinamente com a mesma intensidade e similitude. Realmente sei que posso fazê-lo. Sim! Não tenho mais dúvidas! Vocês são a “razão de meu ser”, como diria o poeta. Que alegria incomensurável! Posso amá-los na mesma proporção e com o mesmo fervor! Sim, chego a sorrir ao saber que posso amá-los, conjuntamente, do fundo de minh’alma.

Além do trautear implacável do tempo, ouço também a campainha do despertador. Olho para o relógio. São seis horas e trinta minutos da manhã. Sinto uma nesga do amanhecer ofuscando meu rosto. Levanto-me e sigo em direção ao quarto de vocês:

- Caio Marcelo!

- Rodrigo!

- Felipe!

- Acordem ...

- São seis horas e trinta minutos da manhã. Vocês têm que ir pro colégio.

Acordem!

- Meus filhos, acordem!

Bem, não sei se preenchi o vazio. Ocorre que o sono chegou, vou dormir. Mas escrever sobre os filhos é algo que faz transbordar o amor de qualquer Ser humano. E ainda sou mortal! 

Clóvis Massaúd
Brasília,
início do período das chuvas de 1985


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