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Os
artigos dessa seção serão trocados periodicamente. Eles
poderão ser utilizados em parte ou no todo, desde
que respeitando a autoria.
PENSAMENTO E REFLEXÃO ESTRATÉGICA NO CONTEXTO EMPRESARIAL
Prof. Clóvis Massaúd da Silveira
“”SE VOCÊ CONHECE O INIMIGO E CONHECE A SI MESMA,
NÃO PRECISA TEMER O RESULTADO DE CEM BATALHAS.
SE VOCÊ SE CONHECE, MAS NÃO CONHECE O INIMIGO,
PARA CADA VITÓRIA GANHA SOFRERÁ TAMBÉM UMA DERROTA.
SE VOCÊ NÃO CONHECE NEM O INIMIGO NEM A SI MESMO,
PERDERÁ TODAS AS BATALHAS”
SUN TZU (século IV BC)
SAUDAÇÃO INICIAL
Certa noite, na distante,
porém acalentadora e saudável
juventude, após uma fugaz, mas dorida paixão, vinha
caminhando por uma alameda quando, num rasgo por entre as folhas,
vislumbrei três estrelas inseridas numa constelação
multi-estelar.
Duas delas reconheci logo. Eram meus pais, sobre os quais falarei
ao término desse artigo.
A terceira, até então desconhecida, ofuscou meu olhar
e, simultaneamente, enterneceu meu coração, tornando-o
repousário de minhas emoções mais puras. Rapidamente
saltei em direção ao cerúleo salpicado de
prata e agarrei-a. Aí, nesse momento, percebi que era uma
estrela de primeira grandeza. Puxei-a, de encontro a meu peito,
entrelaçando-a em meu coração.
Essa estrela que permanece ao meu lado há 40 anos é minha
esposa e mãe de meus filhos, a quem chamo, afetuosamente,
de minha baixinha e a quem ratifico, compulsivamente, que é o
que de melhor me aconteceu na vida.
Os leitores, que integram aquela constelação multiestelar
proferida no inicio da introdução, e as três
estrelas mencionadas, constituem-se a razão de ser desse
artigo.
PROLEGÔMENOS
Há alguns anos trabalho com Planejamento Estratégico,
tanto em sala de aula como professor, quanto em empresas como consultor,
em organismos internacionais como consultor/conselheiro e, finalmente,
atuando em conferencias, no Brasil e na Europa.
Em março de 2001, uma empresa genuinamente brasileira de
expressão internacional entrou em nossa homepage. Verificou
que nosso curso, via internet, de Planejamento e Reflexão
Estratégica, contemplava, com alguma insistência,
itens que valoravam expressivamente a reflexão. Não
se tratava, pura e simplesmente, de um curso de Estratégia,
com seus Planos de Ação e demais procedimentos tradicionais
e oportunos para um estrategista. Porém, aquela organização
percebeu que nossa preocupação maior era, justamente,
com o processo de pensamento e reflexão estratégica.
Essa empresa contratou-nos para um seminário de cinco dias
contínuos com sete (7) de seus executivos. O resultado teve
uma repercussão tão favorável, que optamos
por direcionar nossas conferências/palestras não mais
em Planejamento Estratégico, mas, precipuamente, em PENSAMENTO
E REFLEXÃO ESTRATÉGICA NO CONTEXTO EMPRESARIAL. Entendíamos
que aos executivos cabia a finalidade maior de elaborar uma reflexão
estratégica através da epistemologia. Da mesma forma,
acreditávamos que o Planejamento em si poderia ser delegado
a uma equipe de apoio, desde que qualificada. Cabendo aos executivos
seniores da organização a árdua tarefa de
construir, de arquitetar o pensamento e a reflexão estratégica,
como caudatários naturais do Comitê Estratégico
da empresa. Ou seja, a preocupação maior era centrar
nos executivos a dinâmica da construção do
conhecimento.
Já em 1996, a convite do Prof. Dr. Rubem Rodrigues, naquela
ocasião nosso cardiologista e de saudosa lembrança,
como Diretor da Fundação Universitária de
Cardiologia, entidade conjunta com o Instituto de Cardiologia de
Porto Alegre, tivemos oportunidade de ministrar uma disciplina,
um tanto diferenciada, para um programa de mestrado em Cardiologia.
Essa disciplina foi uma simbiose entre Metodologia da Pesquisa
(essencial para qualquer programa lato ou stricto sensu), que ficou
mais a cargo da cardiologista Lúcia Zimmer, cabendo a nós
trabalhar com a Lógica.
Por que a Lógica? Para consolidar o processo de construção
do conhecimento da própria epistemologia. A experiência
foi válida. Saudável. Não obstante, considerando
outros compromissos profissionais já assumidos (Universidade
Luterana do Brasil, Fundação Getúlio Vargas
e organismos internacionais), tivemos, de forma, até certo
ponto lamentável, que declinarmos de prosseguir com novas
turmas. Porém, e sempre há um porém, o Dr
Marne, Diretor de Ensino da Fundação Universitária
de Cardiologia, já nos constatou para retornarmos. Explicitei
que possivelmente teria disponibilidade de agenda no segundo semestre
de 2005.
Mas, realmente, em que consiste o Pensamento e a Reflexão
Estratégica? A idéia basilar do tema é justamente
buscar o equilíbrio e a saúde da organização
através de quatro (4) vetores fundamentais: a percepção,
a prospecção, o enfoque sistêmico e o processo
de tomada de decisão.
Na percepção trabalha-se através da observação
constante das mutações ambientais internas e, de
maneira intensiva, as mutações externas. Isto na
medida direta e de forma inexorável, ser a ambiência
externa aquela que afeta sobremaneira a vida das organizações.
Até alguns anos passados, costumávamos iniciar nossas
aulas contando alguma piada no sentido de amenizar, de quebrar
o gelo, usando um linguajar comum. Via de regra, comentávamos
um diálogo ocorrido num filme protagonizado pelo falecido
John Candy. O colóquio entre Candy e sua esposa nos parece
relevante na medida direta que trata, ainda que de forma histriônica,
de situações que podem ocorrer na vida das organizações.
Ou seja, uma percepção errônea que pode acarretar
problemas sérios para a empresa se não for bem adequado.
O cenário do filme em que se passou o diálogo foi
uma praia na Flórida. A filha adolescente do casal estava
de flerte com um jovem rapaz. Candy (seu personagem) diz para a
esposa que a filha e o rapaz estavam próximos demais e ele
não estava gostando. Sua esposa respondeu que não
havia nada demais em dois jovens conversarem. Tudo bem! Tudo bem! – respondeu
Candy e prosseguiu “Tudo bem, mas a esta altura os espermatozóides
dele estão gritando: Primeiro eu! Primeiro eu!”
Na prospecção, e aí reside uma capacidade
metodológica que requer procedimentos analíticos
de futurição, trabalha-se com a elaboração
de cenários presentes e, de forma mítica que tangenciam
ao frenopático, com cenários futuros. Esses cenários
futuros, por vezes, confundem-se com os objetivos estilísticos
de Ackoff. Ainda assim, a preocupação maior deve
direcionar-se ao Método Delphus (ou Delphi), na medida direta
em que, embora por demais exaustivo, requer a colaboração
de um grupo de experts em várias áreas do conhecimento.
Este método é muito utilizado no Instituto de Hudson,
entidade onde Hermann Khann trabalhou até seu falecimento.
Cabe aqui uma analogia manifesta por Buzzy ao referir que em Delfos,
no frontispício do templo de Apolo, os antigos gregos esculpiram
o aforismo: “Conhece-te a ti mesmo”. Esse aforismo
deveria ser o primeiro e generoso ponto de onde deveria iniciar-se
qualquer procedimento de diagnose numa organização.
Após, e somente após, conhecer-se a si mesma é que
a empresa poderia elaborar programas de intervenção.
No enfoque sistêmico, tem-se a oportunidade de avaliar a
organização de uma forma tridimensional: o enfoque
sistêmico em si, egresso de Bertanllafi em 1924; A Teoria
de Holon, de Koester (1945); e, resultante das duas, a idéia
de conjunto organizacional, fazendo com que os diversos organismos
internos das empresas mantenham um processo de interação.
Isto é, um juízo comum, uníssono. Não
obstante, De Bono nos direciona num processo seqüencial que: “o
juízo é essencialmente um sistema de reflexão,
de olhar para trás. Isso é suficiente para a maior
parte de nossos pensamentos e comportamentos, mas também
precisamos de fórmulas que nos permitam olhar adiante e
inovar”.
Finalmente, a tomada de decisão. Reside na tomada de decisão,
juntamente com a comunicação interna, um dos fatores
cruciais na vida das empresas: o estar informado. Estar informado é basilar, é o
eixo através do qual os executivos da corporação
analisarão seus problemas, estudarão as alternativas
internas e externas à organização, itemizarão
suas prioridades, as quais culminarão com a decisão
que julgarem mais adequada, mais plausível. Por ocasião
de uma palestra proferida no Centro de Ensino Universitário
de Brasília – CEUB, tive oportunidade de manifestar
que quem decide afeta vidas. Entretanto, é mister que o
executivo-mor da empresa, ainda que carente de informações, às
vezes substanciais, e premido pelo tempo, tenha que decidir. É preferível
que corra o risco de decidir errado do que não decidir.
Por que? Porque, na pior das hipóteses, se decidir errado
ainda poderá reverter a curto ou a médio prazo sua
decisão. Mais ainda, em não decidindo adequadamente
a situação da empresa, será inexorável,
podendo tomar características fronteiriças ao crasso.
Há uma passagem interessante de Allan, Kingdon & Murrien
que se ajusta quando o executivo tem dúvidas sobre a melhor
decisão a tomar. Os autores mencionados sugerem que
seja planejado um almoço...com pessoas de outras áreas
do negócio, a quem normalmente não consulta. Recomendam
que conversem com elas sobre um assunto em que estejam trabalhando
e ouça a opinião delas sobre os assuntos em que você (o
executivo) esteja trabalhando.
Ao longo de minha vida profissional como consultor, por diversas
ocasiões deparei-me com questões complexas e norteadoras
de interpretações múltiplas. Aproveitando
o talento da esmagadora maioria dos alunos de MBA da Fundação
Getúlio Vargas, transformava minhas dúvidas em
pequenos CASES e passava como tarefa numa concepção
de Estratégia de Empresas. O resultado é que muitas
das decisões profissionais que optei foram frutos do talento
e direcionamento dado pelos grupos que estudavam, analisam e
indicavam alguns caminhos a seguir. Essa experiência reforça,
de certa forma, o manifesto por Allan et all. Mais ainda, o fato
de ser um aluno de MBA, não significa necessariamente
que ele não possa contribuir para uma postura estratégica
ou uma tomada de decisão.
A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO (parte introdutória)
A construção do conhecimento ocorre de várias
maneiras. Pela leitura, pela exposição de um professor
ou conferencista, pela troca de idéias entre pessoas e por
outros vieses, incluindo aí a linguagem figurada.
A geração da qual fizemos parte foi a geração
do cinema e das reuniões dançantes. Através
dos anos temos pontuado nossos trabalhos através de conceitos
já consagrados por autores renomados, explicitando exemplos
vivenciados por nós ou por outros colegas da Universidade
Luterana do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas
e, mais recentemente, da Universidade de Barcelona, por colocações
de alunos, por discussões em grupo, por pessoas com afinidades
similares ou dicotômicas, ou, finalmente, por aquelas mencionadas
pela literatura pertinente. Ainda assim, temos o hábito
de buscar no cinema, na TV, no teatro, na música e nesse
mosaico que caracteriza o saber humano alguns tópicos que
possam aguçar nossa mente e ajudar-nos a compreender melhor
a construção do conhecimento e, fundamentalmente,
a elaboração da reflexão. Quer através
da escola Maiêutica (Sócrates), da Parapatética
(Aristóteles), do Discurso sobre o Método - cartesiano
(René Descartes) ou da própria Dialética (Hegel),
as quais podem ser consideradas como sustentáculos do princípio
indelével do ganho de conhecimento, devemos primar pela
convicção de que estamos constantemente em busca
do ideal estratégico através da reflexão,
concluindo, se possível calcado em princípios sólidos
de correntes filosóficas, quer pré ou pós
socráticos.
Em assim sendo, ao longo desse artigo, algumas citações
poderão parecer, num primeiro momento, de uma puerilidade
que poderá tangenciar a inconstância. Todavia, verificarão,
ao final, o quanto existe de realismo nas colocações
e exemplos que aqui mencionaremos.
O MAL É UMA NECESSIDADE. É O ALIMENTO DO TALENTO
No filme Morte em Veneza, o personagem de Dirk
Bogarde, num momento de crise existencial, mantém um diálogo com um
amigo que lhe diz: “O mal é uma necessidade. É o
alimento do talento”.
Afinal o que essa colocação tem a ver com Pensamento
e Reflexão Estratégica? Nos ocorre que o mal pode
e é representado pelas dificuldades pelas quais uma organização
pode passar: problemas com fornecedores, com linha de produção,
com logística, com a estrutura de custos inadequada, com
sindicatos, enfim com uma gama caleidoscópica (apenas para
lembrar a distante, embriante, feliz e saudosa infância)
de problemas que afligem o executivo. Mas, devemos considerar que é justamente
nos momentos de agonia, de angústia que paramos mais detidamente
para pensarmos e refletirmos nas alternativas capazes de recuperar
e potencializar a organização. Isto não significa
que somente através daquelas situações é que
uma empresa poderá otimizar-se. Não obstante, nas
dificuldades é que realmente podemos aquilatar a capacidade
do quadro de executivos. Nos ocorre, no momento, uma organização
multinacional em que desenvolvemos uma consultoria em tempos cuja
inflação estava simplesmente impiedosa. Essa empresa
tinha uma gama de concorrentes com produtos similares e todos de ótima
qualidade e por extensão com preços fugindo do alcance
das classes C e D. Nesse ínterim, surgiu um novo concorrente
com qualidade de produtos inferior, mas também com preços
acessíveis às classes já mencionadas. Ou seja,
nosso problema não era a qualidade de nossos produtos, nem
os concorrentes que se encontravam no mesmo diapasão. Nosso
problema (mal) era os produtos do novo concorrente, ainda que inferiores
em qualidade, estavam, em função de seus preços
praticados, ao alcance da população C e D. Após
reuniões, debates, coleta de informações sobre
o mercado, descrição de cenários presentes
e futuros, optamos por um mecanismo já consagrado em outros
segmentos de mercado. Porém, era algo inusitado naquele
ramo de negócios. Contudo decidimos, ainda que correndo
risco de insucesso, tomar uma decisão. Ou seja, implantamos
o sistema de consórcio. Com essa estratégia, a organização
recuperou-se e passou a despontar novamente no cenário brasileiro
como uma empresa de ponta em seu segmento.
A TEORIA DO CASUÍSMO
Diariamente surgem compêndios, reportagens e exemplos com
relativo sucesso da prática do Benchmark. Nas aulas que
ministramos, cujo alunado em sua esmagadora maioria é talentosa,
temos ouvido experiências nesse sentido que estão
dando certo. Particularmente, somos cautelosos no que se refere
a pinçarmos o que há de bom numa organização
e trazemos para outra. A questão resume-se na Teoria do
Casuísmo. Ou seja, cada caso é um caso. Carl Jung,
psicólogo, tem uma colocação quiçá interessante.
Ei-la: “O sapato que serve no pé de uma pessoa aperta
o de outra; não existe uma receita de vida que sirva para
todos os casos”.
A essência da questão resume-se que embora as oportunidades
externas (é uma redundância) para empresas com mesmo
portfólio, o fato concreto é que internamente cada
uma tem suas peculiaridades. Tanto que ocasiões existem
que uma oportunidade pode tornar-se uma ameaça caso internamente
haja uma predominância de pontos fracos. O que, sem dúvidas,
inviabilizaria a otimização das oportunidades disponíveis
na ambiência externa.
A IMPORTÂNCIA DO FOCO DENTRO DA ORGANIZAÇÃO
Sabe-se que, ao longo dos tempos, a extinta PANAM
foi considerada a empresa aérea mais rentável do planeta. Muitos
filmes mostraram como pano de fundo o monumental edifício
da não menos *monumental companhia. Afinal, o que foi
que ocorreu com a PANAM? Foi, pura e simplesmente, a diversificação/verticalização
que a empresa optou como estratégia? O exemplo da PANAM
serve de alerta a uma gama incontável de organizações.
A questão resume-se não pelo simples fato de optar
pela diversificação. Após ler relatórios,
mantermos discussões estratégicas sobre aquela
empresa, concluímos que o fator primordial, o embrião
de sua derrocada centrou-se justamente na falta de um foco primário.
Ou seja, a empresa, em determinado momento, ficou ao sabor de
várias de suas subdivisões, ao mesmo tempo em que
seu foco basilar estava entrando num processo degenerativo. Costumamos
citar em sala de aula, e mesmo em conferências, uma passagem
de Lewis Carroll, em seu livro Alice no País das Maravilhas.
Ei-lo:
Alice: Por favor, você poderia me dizer o caminho que devo
seguir?
Gato Cheschire: Isso depende muito do lugar para onde você quer
ir!
Alice: Eu não me importo para onde.
Gato Cheschire: Então não faz diferença o
caminho a pegar.
O diálogo entre Alice e o gato nos direciona de forma contundente
a pensar em empresas que se perderam no contexto da lucratividade
justamente por, em determinado momento, perderem seu foco. E aqui
reside a essência da reflexão, mais explicitamente.
Antes de definirmos estratégias de desenvolvimento ou mesmo
de crescimento, devemos pautar por um processo de coleta de informações
que nos conduza à reflexão e ao pensamento estratégico.
Numa concepção de Ratzel, um geopolítico de
primeira linha, o espaço era considerado poder. Hoje, como
jamais visto no pretérito, a informação é que
determinará o poder e a sustentação de estratégias
e planos de ações bem articulados, não esquecendo
que essa estruturação deverá ser precedida
de um excelente programa de reflexão. Em síntese,
a palavra de ordem é Pensar! Pensar! Pensar!
Há um outro exemplo, vale citar Peter Senge em seu livro
A Quinta Disciplina, também de empresa aérea, que
merece ser lembrado. Na década de 80, nos Estados Unidos,
havia uma pequena empresa para vôos regionais. Tratava-se
da extinta People Express Airlines. Essa companhia primava desde
a emissão do bilhete, pelo chek in, serviço de bordo
e, finalmente, pelo próprio chek out. Um dos pontos fortes
da empresa era a presteza de seus funcionários. Em menos
de dois anos, a People passou a ter em suas aeronaves a maior taxa
de ocupação da história da aviação
civil americana. O sucesso foi tão grande que, em pouco
tempo, comprou uma outra empresa. E, paradoxalmente, foi o limiar
de sua decadência. No afã de transportar um número
maior de passageiros viu-se, como é natural, na necessidade
de ampliar seu quadro de funcionários. Porém, e costumamos
repetir que sempre há um porém, a People não
teve tempo suficiente de treinar seus novos funcionários
no mesmo diapasão que seus passageiros estavam habituados
a encontrar, inclusive com a decadência de seu serviço
de bordo. Resumo: num período de 6 anos, a empresa foi lançada,
atingiu seu píncaro e entrou na sua Mindanao (apenas para
lembrar a maior profundeza da Terra).
Vale ressaltar que faltou aos executivos da People Express Airlines
a capacidade de pensar no nível de satisfação
de seus passageiros. Ou seja, reforça-se a idéia
que a reflexão e o pensamento estratégico precedem
a qualquer tomada de decisão. Isto na medida direta que
uma tomada de decisão constitui-se numa estratégia.
Com relação a não perder o foco essencial
da organização, temos recomendado lerem A Hora da
Verdade , de Jan Carlzon (ex presidente da Scandinavian Airlines).
MAQUIAVEL
Historicamente, Maquiavel tem sido adjetivado como
maléfico.
Não cabe aqui discutir essa conotação. Entretanto,
um pesquisador, um estudioso, um homem que está constantemente
em busca de aprimorar seus conhecimentos deve, quando for pertinente,
valer-se daquilo que outros pensadores manifestaram. Outro aspecto:
um decisor, um executivo detentor de capacidade de reflexão
estratégica, não pode, nem deve ter esses tipos de
preconceitos, desde que se mantenha incólume a Ética
dos Fins Absolutos de Aristóteles, (O Pensamento Aristotélico
sobre a ética manifesta que o fim justifica os meios). Mas
vamos retornar a Maquiavel. Há uma determinada passagem
em O Príncipe, em que o autor manifesta que “a realidade é como
ela é, não como desejamos que ela fosse”.
Em síntese, ao aplicarmos a máxima de Maquiavel para
o meio empresarial, poderíamos interpretá-la como – uma
coisa é o que eu quero, outra é o que posso fazer.
Jamais dissemos a um empresário ou executivo que ele deva
ser, pura e simplesmente, contemplativo. Ao contrário, o
espírito empreendedor deve ser uma tônica, uma constante
na vida daquelas pessoas que decidem as estratégias e, por
extensão, o futuro de suas empresas. Contudo cabe aqui lembrarmos
de Virgílio quando manifesta que “nosso futuro será traçado
em função dos Deuses que escolhermos”.
Resumindo, o destino da empresa será traçado em função
das estratégias que seus executivos alavancarem para suas
organizações.
Ainda dentro da concepção de Maquiavel, tivemos oportunidade
de realizar uma consultoria para uma indústria de confecções
feminina (Lingerie. Aliás, já não tenho tanta
certeza que sirva apenas para o sexo feminino. Basta ver....).
Através de uma pesquisa de mercado, o diretor de marketing
verificou um nicho disponível na faixa de 20%, o que, sem
dúvidas, é alguma coisa de excepcional. Nessa empresa
significaria uma produção adicional de 400 mil unidades.
Rapidamente colocou seu pessoal de vendas a penetrar com mais afinco
no mercado que estava receptivo. Não obstante, esse diretor
esqueceu-se, talvez por euforia (é possível que fosse
portador do Transtorno Afetivo Bipolar – na verdade um eufemismo
para a Psicose Maníaco-Depressiva), de entrar em contato
com a diretoria de produção. Somente quando os pedidos
começaram a chegar (na ordem de 11%), o diretor de marketing
entrou em contato com a produção. O detalhe é que
a capacidade de produção da indústria estava
esgotada. Simplesmente não tinham condições
de produzir uma peça a mais. O pânico que se instalou
na empresa foi dantesco. Nessa ocasião, nos chamaram (Essas
chamadas/convites são fantásticos). Conversamos com
o financeiro e produção no sentido de adquirirmos
novos equipamentos. Após estudos de viabilidade, constamos
que seria necessário um ponto de equilíbrio (break
even point) de 44.000 peças/mês, pelo período
de nove anos para a empresa ter seu retorno sobre o investimento.
Nesse ínterim, a imagem da empresa estava sendo ofuscada.
A alternativa que encontramos foi fabricar os produtos das classes
C e D, menos exigentes (hoje as classes sociais vão até o
final do alfabeto) através da facção. Ainda
que contra a vontade do presidente da organização,
pois entendia que o controle de qualidade poderia cair. Isto foi
solucionado com uma supervisão diária nas casas daquelas
pessoas que atuavam através da facção.
Qual lição poderíamos tirar do pensamento
de Maquiavel e da indústria exemplificada por nós?
Em primeiro lugar faltava naquela empresa um fator que ainda é crucial
nos dias de hoje: a comunicação adequada. Logo após,
os diretores não tinham idéia de sua capacidade de
produção. Finalmente, ainda que paradoxal, através
do desespero de ver a imagem abalada acabaram atendendo as solicitações
do mercado. Esse exemplo nos reporta ao diálogo do filme
Morte em Veneza: “O mal é uma necessidade. É o
alimento do talento”.
REFLEXÃO BI-DIMENSIONAL
Ao longo da vida profissional aplicamos modelagens
distintas na elaboração do Planejamento Estratégico. Na
medida direta que novas correntes de pensamento surgiam, mergulhávamos,
não apenas na estrutura dos planos em si, mas prioritariamente
na sua sustentação das intervenções
adequadas. Observando o comportamento dos Comitês Estratégicos
das 74 empresas (públicas, privadas e cooperativas) que
trabalhamos como consultor no Brasil e na Europa, notamos uma situação
peculiar: no mesmo diapasão que as empresas valorizavam
sobremaneira a descrição de cenários futuros,
percebíamos que um aspecto não era devidamente considerado – a
percepção. Ainda que a percepção seja
trabalhada mais em Desenvolvimento Organizacional do que em Estratégia
propriamente dita, ainda assim, começamos a nos aprofundar
nesse detalhe. Como resultante, após vários laboratórios,
concluímos que um dos vetores geradores da reflexão,
e por extensão do Planejamento Estratégico, repousava
no binômio perceptivo e prospectivo. Isto é, a conjugação
desses vetores nos remetiam a um processo inquestionável
de ação estratégica. Vejamos: através
da percepção, o executivo tem a sua disposição
características que o direcionam a um processo natural de
perceber os acontecimentos internos da organização
na medida direta em que, sendo o funcionário a razão
básica da organização (dentro de uma concepção
comportamentalista de Simon), a probabilidade da satisfação
do cliente/consumidor torna-se fronteiriça ao ideal. Em
paralelo, o ambiente externo também, e cada vez mais consistente
e contínuo, deve ser passivo de ser percebido. A capacidade
de percepção deve ser assimilada de forma paulatina.
Costumamos manifestar a nossos alunos e antigos clientes, que o
primeiro passo a ser considerado para o desenvolvimento da percepção
reside na leitura. Na leitura? Sim, apenas que contemplando cinco
questões inerentes a capacidade do saber ler. No que se
reporta ao comportamento humano, e aí vamos de Simon a Pierre
Weill, os gestos, posturas pessoais é que nos determinarão
como consolidar a percepção. Mas, retornando às
leituras, tenho recomendado a meus alunos responderem, como já manifestei,
cinco perguntas básicas ao lerem um artigo ou mesmo o capítulo
de um livro. Ei-las:
1ª Qual a mensagem básica do texto?
2ª Quais argumentos o autor utilizou para sustentar sua mensagem
básica?
3ª Ambigüidades por ventura encontradas no texto?
4ª Convergências ou divergências sobre o mesmo
tema em relação a outros autores;
5ª Qual a aplicabilidade da mensagem básica no dia-a-dia
profissional?
Por respeito, consideração e ética profissional,
devemos manifestar que introjetamos essas questões através
da Profa. Anna Maria Campos, quando fomos seu aluno na Fundação
Getúlio Vargas em Brasília.
Em maio de 2001 tivemos oportunidade, através de um convite
da Sra. Cristiane Gielling, na época Gerente das Comissárias
da Rio-Sul (empresa de pequeno porte, porém eficiente, que
sucumbiu aos caprichos de sua mater), de proferirmos uma palestra
no curso de Chefes de Equipe daquela empresa. Falamos como observar
o comportamento dos passageiros através dos gestos, posição
das mãos, dos pés, olhar etc... Foi uma experiência
esplêndida. Inclusive, a idéia era darmos um curso
para todas comissárias da empresa. Ocorre que, nesse ínterim,
o Presidente da Rio- Sul, por determinação da VARIG,
foi substituído. O paradoxal é que possivelmente
a VARIG é que seja substituída.
No que concerne ao viés prospectivo, ou seja, à Visão,
ao Objetivo Estilístico da Organização ou
mesmo ao cenário futuro, cada vez mais se torna complexa
a elaboração de um cenário adequado. Como
roteiro para cenários presentes, os itens elencados por
Levy servem como um roteiro para trabalhar-se e adequar-se a uma
situação presente. Ainda assim, requer uma capacidade
ativa de fertilização cruzada entre pessoas de vários
segmentos da empresa (vide os tópicos levantados por Levy
no capítulo denominado Apêndice). Mas, não
basta ao executivo a situação presente. Ao longo
de nossas consultorias, aulas ministradas e conferências
proferidas, percebemos a necessidade premente de, dentro do possível,
ter uma perspectiva futura. Reiteramos em que pese o processo contínuo
e avassalador das mutações ambientais externas e,
cada vez mais, numa sociedade globalizada, ainda recomendamos a
utilização do Método Delphi de prospecção
de cenários futuros. Essa metodologia basilar para os estudos
do Instituto de Hudson onde pontificou a participação
do falecido Herman Khann, um dos futurólogos mais conceituados,
tem servido até hoje como ponto de referência para
o estudo de cenários. Não obstante, o executivo deve
considerar que, atualmente, existem organizações
que apresentam cenários já elaborados por equipes
de especialistas e estão à disposição
no mercado. Todavia, elaborar e avaliar internamente as peculiariadades
daqueles fatores que afetam ou poderão afetar a vida da
empresa, é uma tarefa árdua, mas que dá consistência
e confiança para a empresa. A exemplo da descrição
de cenários presentes de Levy, o Método Delphi encontra-se
também no capítulo Apêndice.
Dois exemplos de prospecção de cenários futuros encontram-se
numa publicação denominada de Livro Verde, editado pela Assembléia
Legislativa do Rio Grande do sul em 1997. Ali estão contempladas duas
situações preocupantes. A primeira afirma que no ano 2015 teremos
apenas 7% da população mundial plantando para alimentar o mundo.
A pergunta que se impõe: O que faremos com aqueles indivíduos
que não serão aproveitados nas lides campesinas? A idéia
primária é termos correntes migratórias constantes para
os núcleos urbanos. Entretanto, um aspecto é quiçá preocupante:
como conseguiremos acolher esses contingentes, se nossas cidades não
apresentam condições de saneamento e moradia capaz de abrigar
essas pessoas. Outro ponto, considerando os índices de desemprego cada
vez aumentando, como poderemos absorver o excesso de mão-de-obra não
qualificada que irá advir do meio rural? É traumático. É sombrio.
Tangência ao deplorável. Além desse indicativo futurista,
outro dado nos preocupa. Estima-se que até o ano 2020, surgirão
80% de novas profissões. Isto significa, simplesmente, que deveremos
estar constantemente num processo de educação continuada. Ou
seja, a Reconversão Profissional, tema central de um curso que fizemos
no Centro de Treinamento da Organização Internacional do Trabalho
em Turim é um indicativo que deveremos nos preparar para essa avalanche
de novas profissões.
Mas o que vem a ser Reconversão Profissional e como a União Européia
vem tratando desse assunto?
RECONVERSÃO PROFISSIONAL
ENTREVISTA: Clóvis Massaúd da Silveira
JORNALISTA: Rosa Maria dos Santos
1) Recentemente o Senhor esteve em Turim representando a STRONG/FGV
em um evento. Como foi a experiência e o que exatamente foi
discutido?
Como introdução a sua pergunta, devo manifestar minha
satisfação ao constatar que organizações
como a STRONG/FGV preocupam-se em buscar e possibilitar o ganho
de conhecimento para os seus colaboradores.
Em paralelo, a exemplo do ocorrido dia 27 de março, quando
da conferência sobre RECONVERSÃO PROFISSIONAL: A OTIMIZAÇÃO
DO TALENTO na própria STRONG/FGV, volto a agradecer o ensejo
que o Sr Sérgio Tadeu proporcionou-me ao patrocinar o curso
sobre Novas Formas de Organização do Trabalho e Reconversão
Profissional, promovido pela Organização Internacional
do Trabalho em seu Centro de Treinamento em Turim.
No que diz respeito ao curso em si, ele foi, simplesmente, notável.
Tanto ao nível de sala de aula (com exposições
relevantes e a própria fertilização cruzada
gerada pelos debates entre os participantes. Ressalte-se que todos
da América Latina), como nas visitas que fizemos a empresas, órgãos
governamentais e entidades de ensino (Societá Prototipo
em Trofarello; Societá Prima Industria S P A em Collegno;
FIAT AUTO em Torino; Ministério do Trabalho, Centro de Informação
e Orientação do Emprego e SIEMENS em Munique; Latteria
San Silvestro em Mantova, Consorzio Latteria Mantovane em Mantova
e Instituto Salesiano de Formação Profissional SAN
ZENO em Verona).
Durante as 80 horas de duração do curso, ouvimos,
debatemos, presenciamos e introjetamos conteúdos significativos,
os quais poderíamos destacar o impacto das políticas
macroeconômicas sobre o mercado de trabalho na UNIÃO
EUROPÉIA, NAFTA e MERCOSUL e os Programas e as iniciativas
européias comunitárias dirigidas à adaptação
dos trabalhadores, às mutações industrias
e à prestação de serviços.
Em síntese, nosso grupo de participantes teve um crescimento
tão significativo que estamos elaborando, via Organização
Internacional do Trabalho, um segundo curso com o mesmo enfoque,
sendo que dessa vez será centrado na realidade Latinoamericana.
2) Como o Senhor avalia o mercado de trabalho brasileiro. Tem
havido avanços nas questões relativas à qualificação
e à requalificação da mão-de-obra?
Em linhas gerais, o mercado de trabalho encontra-se
rarefeito não
apenas no Brasil, mas no contexto mundial. Não obstante,
a Europa, através do Fundo Social Europeu está reformulando
as políticas laborais. Basta ver que o Protocolo de Amsterdam
(maio de 1999) formulou um programa de qualificação
de mão-de-obra, abrangendo os anos compreendidos entre 2000
e 2006. Este Programa compreende aporte de recursos de 58 bilhões
de dólares, sendo 34 bilhões para empregabilidade
(capacidade de empregar-se), 8 bilhões para empresabilidade
(capacidade de criar empresas), 11 bilhões para adaptabilidade
(inovação tecnológica e de gestão)
e 4 bilhões para oportunidades iguais (desenvolvimento de
formação contínua dos trabalhadores nas empresas).
No caso Latino, mais precisamente no caso do Brasil, a questão
do desemprego é crucial. Mais ainda, é caudatário
natural para o emprego informal que se, de um lado possibilita
uma determinada renda para as pessoas que ali labutam, de outro
penaliza as empresas legalmente constituídas e que pagam
seus impostos. A síntese é que a população
sem emprego formal precisa sobreviver. Isto é, ainda que
de forma draconiana, nossa situação passa necessariamente
por uma reordenação conjuntural/estrutural.
Prosseguindo, no que concerne à qualificação
e requalificação da mão-de-obra, presenciamos
de maneira saudável e promissora, ações consistentes
por parte de entidades como SESI, SENAC, SENAI, SENAT, SENAR e
SEBRAE entre outras. Entretanto, não basta qualificarmos/requalificarmos
as pessoas. Mister se faz que tenhamos colocação
para esse elenco. Devemos, e isto é primordial e emergencial,
adotarmos uma política de apoio real às pequenas
e médias empresas, não apenas com incentivos para
criá-las, mas com condições de apoio contínuo,
até seu próprio amadurecimento e com uma carga tributária
compatível com a realidade dessas organizações.
Para termos uma idéia da valoração que a União
Européia dá às pequenas e médias empresas — 90%
das delas tem menos que 30 empregados. Como seria se nossos governantes
pensassem nisso?
3) Quais são as formas mais modernas de organização
do trabalho, suas vantagens e desvantagens?
Um dos aspectos abordados em Turim, aliás, colocação
inserida no nome do próprio curso, foi o conceito de competência
profissional e seus modelos atuais. O Tratado de Amesterdam, já mencionado,
e as tendências do mercado de trabalho na Europa foram temas
beneficamente exauridos.
Em relação às diferentes concepções
filosóficas, os modelos de competência profissional
podem ser classificados em Modelo Condutista (que tem como referência
os trabalhadores mais capacitados), Modelo Funcional (que utiliza
o método dedutivo, partindo da missão da empresa
até as atividades profissionais mais simples) e Modelo Construtivista
(que é centrado na pessoa que aprende ou que vai desenvolvendo
suas potencialidades até ser um indivíduo profissionalmente
competente).
Independente das vantagens e desvantagens das formas de organização
do trabalho, o fato é que as sociedades devem adequar-se
a elas caso queiram sobreviver (deve-se ressaltar que não
apenas as empresas, como os governos e trabalhadores passem necessariamente
por essa adequação).
4) O que é reconversão profissional, tema de recente
palestra que o senhor proferiu para os alunos da STRONG/FGV?
A reconversão profissional consiste na troca de profissão
por parte do trabalhador. Isso ocorre por razões diversas.
Entre elas, certas funções que estão cedendo
lugar à tecnologia, novas alternativas de chegar-se a um
denominador utilizando técnicas até então
desconhecidas, etc.
Para teres uma idéia, há um estudo do Instituto de
Hudson (onde se encontra uma gama de excelentes futurólogos
e que trabalham também com o Método Delphi de descrição
de cenários futuros) enfatizando que até o ano 2020
surgirão 80% de novas profissões, sendo que ainda
não temos uma idéia concreta de quais serão.
Numa ótica pessoal, chega a ser brutal na medida direta
que teremos, necessariamente, de sermos polivalentes e multifuncionais.
Isto preocupa, pois, se de um lado a polivalência possibilita
conhecer quatro, cinco atividades, nos tornando generalistas, há o
risco latente de não termos profundidade em nenhum segmento.
Mas dentro de uma concepção psicossocial, vejo a
reconversão profissional como alternativa para empresas
e trabalhadores. Até porque, muitas vezes, desenvolvemos
certas atividades que não se enquadram dentro de nosso perfil
e o fazemos, simplesmente, por uma questão de sobrevivência.
Quantos talentos encontrei em minha vida de consultor, que não
estavam satisfeitos com suas atividades? Exemplificando: os alunos
dos cursos de MBA que STRONG/FGV desenvolvem. Muitos deles foram
catapultados para funções de executivos e estão
aprimorando-se para essas tarefas, ou perceberam que seu perfil
adequa-se mais a uma área financeira, por exemplo, e estão
preparando-se para isso. Enfim, poderíamos comentar horas
a fio sobre essas mutações laborais.
5) O que, para o senhor, é um profissional de talento e
quais os caminhos para chegar a ser um deles? Há receita
para o sucesso profissional?
Preliminarmente, devemos considerar um aspecto
de suma importância:
a sociedade que adveio com a era da informação. Vejamos,
até então, éramos uma sociedade industrial
cujo foco consistia, em sua plenitude, na produção.
Hoje, migramos para uma sociedade da informação e
do conhecimento. Jamais, no pretérito, valorizou-se tanto
o conhecimento. Evidentemente, num primeiro momento, que o talento
está inserido no conhecimento e na informação.
Porém, e sempre há um porém, há uma
colocação genial de Roger Von Oech sobre o conhecimento:
ele salienta que não basta termos conhecimento, o fundamental é saber
o que fazer com o conhecimento que se tem. Creio que reside aí a
essência do talento. Não obstante, sem querer dar
uma de Padre Meredith (o advogado do diabo de Morris West) muitas
vezes o psicólogo dos Recursos Humanos (lamentavelmente
a maioria deles são freudianos ou lacanianos...risos) de
uma empresa verifica que o indivíduo tem talento, mas é um
desagregador em potencial. Bem, nesse caso eu não o contrataria.
Prosseguindo, entendo que, hoje, para ser considerado um profissional
de talento deve-se, necessariamente, enquadrar-se dentro de um
novo perfil, ainda que mosaical, o qual contemple uma maior compreensão
da atividade produtiva em seu conjunto, uma capacidade de comunicação
(escrita e oral), uma capacidade de resolver problemas, de trabalhar
em equipe e tomar decisões. Além dessas características,
o novo perfil requer uma atitude positiva para mudança por
parte do trabalhador.
Concluindo a resposta de sua pergunta, no que tange “se há receita
para o sucesso profissional”, vejo que os requisitos mencionados
alhures poderão ser, ao natural, repousários (ou
capilares) do sucesso.
Santos, 28 de março de 2002.
O RETORNO À GERIATRIA (ou a sublimação da
genitália?)
Cabe uma ressalva, um tanto hilária, contada por um assistente
e amigo meu, João Carlos Louzada, ao referir-se aos meus
40 anos de casado (17/08/2003).
“— Massaúd, tu estás entrando na fase da nostalgia”.
Ou seja, a nostalgia é quando o ato de solucionar um problema renal/bexiga
se constitui na sublimação da genitália (um baita trovador!!!!).
Até chegarmos ao momento atual em que as empresas enfatizam o Planejamento
Estratégico, sendo que numa ótica pessoal valoramos mais o pensamento
e a reflexão estratégica do que o Planejamento em si, várias
modelagens percorreram uma trajetória mosaical de tons com matizes científicas,
laboratoriais, herméticas, rígidas, formais e informais, culminando
com a Escola da Contingência de Woodward. Em que pese o Planejamento
Estratégico estar inserido na vida das organizações, nós,
ao longo de estudos acadêmicos e de consultorias propriamente ditas,
optamos por seguir a Escola Comportamentalista (Simon & March), sem descurar
da eqüidade que deve pautar uma organização. Simplificando,
o equilíbrio entre as áreas comportamentais e operacionais.
Porém, um breve histórico das diversas fases da administração
fazem-se necessárias de serem analisadas antes de adentrarmos no Enfoque
Sócio Técnico (Trist).
A primeira Teoria – Gerenciamento Científico - que surgiu, no
que concerne às correntes da Administração, como pioneira,
foi através de Frederick Taylor, mais conhecida por taylorismo, cujos
pontos basilares contemplavam uma autoridade centralizada, clara divisão
de autoridade, unidade de comando, hierarquia, amplitude de controle, subordinação
dos interesses individuais, especialização, divisão do
trabalho, regras e procedimentos rígidos, clara separação
entre gerência e nível operacional (pensar e agir)
A Segunda Teoria – Clássica das Organizações, Estruturalista – aflorou
após estudos de Henry Fayol, cuja linha de raciocínio baseava-se,
pura e simplesmente, no contexto de que Taylor tinha se preocupado precipuamente
com características essenciais de produção. Entendeu Fayol
que o design (estrutura) completo das organizações serviriam
para potencializar as idéias e princípios manifestados por Taylor.
Elaborou a Divisão em Departamentos, Coordenação entre
Departamentos e a Gestão da Hierarquia. Culminou centrando a organização
através de quatro pilares fundamentais e que são, hoje (2003),
totalmente necessários e factíveis. Ei-los: Planejamento, Controle,
Organização e Direção. Esses pilares são
considerados indispensáveis para a eficiência e eficácia
da empresa.
Completando a Segunda Teoria, surge a Teoria da Burocracia de Max Weber. Deve-se
ressaltar que na década de 20 não existia um principio definido
de ações estruturais. As Escolas de Taylor e Fayol ainda se encontravam
numa fase embrionária, em que pese o fordismo e a necessidade premente
das empresas organizarem-se. Contudo Max Weber, sociólogo, sintetiza
sua teoria dentro de alguns vetores: Burocracia era a estrutura ideal para
as empresas; alto grau de especialização e divisão do
trabalho em todos níveis organizacionais; hierarquia e autoridade; conjunto
de regras e procedimentos para condução do trabalho diário
e tomada de decisão impessoal. Esse engessamento nas empresas, em que
pese hoje ser obsoleto, foi na época essencial e oportuno. Reitero o
manifesto em relação a Fayol. E, em pleno século XXI,
temos ainda três vetores de Weber, os quais estão presentes nas
organizações: Hierarquia, Disciplina e Definição
de Competência.
Todavia, nenhum dos pensadores valorou os recursos humanos das empresas. Os
três focaram suas atenções para o binômio produção
x estrutura. Deve-se, ainda, ressaltar o pensamento de Vilfredo Pareto, quando
em 1917 manifestou que apenas uma parcela elitizada da população
deveria ter acesso ao conhecimento. Tal posicionamento nos direciona a compreender
as idéias de Max Weber em manter sistemas de rígido controle.
Após o advento das escolas supra mencionadas, surgiram, a cada década,
escolas que marcaram a evolução das Teorias sobre a Administração
e que culminaram com a Escola da Contingência, que é justamente
aquela em que repousa os princípios básicos do Planejamento Estratégico.
Escola das Relações Humanas (década de 30), de Elton Mayo,
que iniciou suas pesquisas a fim de verificar quais fatores eram determinantes
para motivar os funcionários. De 1927 a 1932, Mayo e seus assessores
desenvolveram uma série de testes no sentido de mensurar, de identificar
tais fatores. Em síntese, não concluíram nenhuma modelagem
científica. Outro fator que a Administração considera
inadequado foi Elton Mayo ter refutado todas as teorias previamente elaboradas
por Taylor, Fayol e Weber. Entretanto, deve-se clarificar que resultante das
experiências da Escola das Relações Humanas, um fator deve
ser considerado como essencial para a saúde das organizações
sendo, inclusive, amplamente utilizado na administração moderna:
a organização informal. Ou seja, através de troca de idéias
entre colegas de empresas, as decisões e ajustes operacionais passaram
a fluir com maiores níveis de acerto, tornando a empresa mais flexível
e, por extensão, com maior capacidade de comunicação e
uma postura de tomada de decisão com menores possibilidades de erros.
Na década de 40, Herbert Simon cria a Escola da Racionalidade Limitada.
Há dois pontos clássicos na linha de pensamento de Simon. Primeiro
a valoração dos Recursos Humanos da Empresa. Pode-se afirmar
que através de Simon começa-se a pensar num modelo comportamentalista.
Outro ponto não menos importante é o princípio da Tomada
de Decisão. Manifesta o autor que se deve exaurir, ao máximo,
a fase do planejamento, a fim de quando se entrar na consecução
da ação, propriamente dita, esta ter poucas possibilidades de
não dar certo. Isto é, debater com seus assessores as variáveis
possíveis de otimização ou aquelas que poderão
impedir de se concretizar ações que venham a ter um efeito sinérgico
na empresa. Por longos anos, a modelagem de Simon foi aplicada na administração
de empresas japonesas.
SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX (ou Ponce de
Leon e a Fonte da Juventude?)
No processo de desenvolvimento das técnicas e escolas da
Administração que, felizmente, é uma dinâmica
contínua, chegamos a década de 50 onde, de início,
começam os pensadores da escola inglesa, através
da Tavistock School of Human Relations (Trist) a centrar suas linhas
de pesquisa não apenas no foco social como, também,
no técnico propriamente dito. Esses estudos e experiências
de Trist começaram em 1951 e culminaram em 1963 com o denominado
Enfoque Sócio-Técnico cuja análise está contemplada
num parágrafo a parte. Há um outro viés que
surgiu nesse período: a ênfase na tecnologia. Em assim
sendo o topo da administração estaria centrado na
capacidade tecnológica das empresas. Nota-se, aqui, uma
influência das praticas da tecnologia utilizadas na Segunda
Guerra Mundial e que viriam a se confirmar através dos estudos
que antecederam e sucederam aquele conflito bélico. Além,
evidentemente, das experiências e conquistas espaciais promovidas
pela ex URSS e pelos Estados Unidos. Interessante observar que
o historiador inglês Arnold Toynbee criticava as verbas destinadas
ao projeto Saturno, alegando que esses recursos poderiam ser aplicados
em pesquisas contra determinadas moléstias. Entretanto, é mister
reconhecer que a ida do homem a Lua, teve como resultado um avanço
em vários segmentos da tecnologia que contribuíram
de forma indelével para a diagnose e cura de certas enfermidades.
Na década de 60 encontramos duas vertentes que, de certa
forma, agilizariam a maneira de pensar das organizações.
Uma delas, a valorização dos Recursos Humanos nas
organizações. Esses estudos começaram com
Argyris e McGregor e, constantemente, vêm alternando-se num
processo dinâmico de aperfeiçoamento e valoração
das pessoas dentro das empresas. Não se poderia aqui, descurar
de relembrar a importância de Herbert Simon (1947) quando,
como já foi manifestado, valorou o papel do ser humano nas
organizações.
Também na década de 60, duas escolas afloram de forma
inquestionável e viriam a servir de paradigma e renovação
constantes até nossos dias. Trata-se da Escola da Contingência
ou Situacional, cujo precursor foi Woodward onde derrubou a máxima
do The Best Way. Ou seja, no período da Escola de Taylor,
ele manifestara que somente através da produção é que
uma empresa otimizaria seus lucros. Com Woodward observamos que
há vários caminhos para a organização
atingir seus objetivos. Entre eles e, possivelmente, um dos fundamentais,
a observação das variações ambientais
externas. Woodward foi apenas o embrião do Planejamento
Estratégico. Logo após e até hoje, uma gama
incontável de autores tem pesquisado e desenvolvido estudos
na área da Estratégia e seus modelos de Planos de
Ações. É aqui, justamente nesse emaranhado
de procedimentos analíticos, que caracterizaram as décadas
de 70, 80 e 90, que vamos perambular por um verdadeiro mosaico
de Planos e Modelos de Planejamento Estratégico. Henry Mintzberg
fez um diagnóstico bastante acurado sobre a questão
da vulnerabilidade do Planejamento Estratégico. Segundo
ele:
As décadas de 70 e 80 foram a época áurea
do Planejamento Estratégico. Na prática, a maioria
desses planos acabou por fracassar..........os motivos diagnosticados
foram que o excesso de análises criou uma espécie
de paralisia. Por outro lado considerou que não se deve
separar o planejamento da ação. Enquanto planejar é um
exercício analítico, a estratégia baseia-se
na criatividade, intuição e capacidade de síntese.
Para designar essa última atitude propôs, em alternativa,
o termo ‘pensamento estratégico.
Quem quer que escreva sobre estratégia não pode deixar
de abordar Ackoff e Anssoff. Ambos são considerados os pais
da Estratégia. Um fato importante é que nenhum desses
pensadores da administração jamais moldaram um modelo,
um plano que considerassem ideal. A preocupação de
Ackoff e Anssoff foi, justamente, de elaborar estudos e pesquisas
centrados no papel da estratégia em si, sem preocuparem-se
em modelagens. Em síntese, os dois cientistas, em 1966,
tinham em mente a construção do pensamento estratégico.
E aqui reside, inexoravelmente, a essência, a razão
de ser de nosso trabalho. Ou seja, resgatar a construção
do conhecimento estratégico. Levar o executivo a pensar
e a tomar decisões centradas em estratégias, deixando
os Planos de Ações para que sua equipe os desenvolva.
Prosseguido com Mintzberg, ele nos faz entre outras, duas observações
passíveis de uma análise mais reflexiva: “Planejar é um
exercício analítico. Não se deve separá-lo
da ação”.
Herbert Simon, já mencionado anteriormente, em 1947, nos
direcionava a essa mesma linha de pensamento. Ou seja, a temporalidade
aplicada ao processo de planejamento que antecedia a ação
devia ser exaurida com maior abrangência possível.
Embora, segundo Simon, o tempo demandado no planejamento fosse
na ordem de 80/90% do processo, restando apenas 10/20% para a implantação
da ação propriamente dita. Ele justificava que, dessa
forma, a possibilidade do erro na tomada de decisão seria
mínima. Além disso, devemos considerar que uma tomada
de decisão, em última análise, se constitui
numa estratégia e, por analogia, afeta vidas. Dessa forma,
a colocação de Mintzberg adequa-se ao pensamento
anterior de Simon. Todavia, cabe ressaltar que o Planejamento não
pode, nem deve, ser separado da ação propriamente
dita.
Ainda dentro de uma linha de raciocínio de Mintzberg, ele
entende que uma estratégia se baseia na “criatividade,
na intuição e na capacidade de síntese”.
Vamos analisar cada um dos tópicos contemplados na tríade
de Mintzberg:
1. Criatividade. Roger von Oech nos possibilita, ainda que de forma
irônica mas inteligente, avaliar o processo criativo sob
dois enfoques. Segundo ele, dois momentos são importantes
no desenvolvimento de novas idéias: A fase germinativa e
a fase prática. A metáfora conclusiva é que
na fase germinativa as novas idéias brotam e na fase prática
colhem-se os resultados. Os resultados, pode-se deduzir, seriam
de ordem cartesiana. Ou, tangenciando o Discurso sobre o Método,
partiríamos do mais simples ao mais complexo. Mas como se
situaria, neste contexto, a Maiêutica Socrática? Simplificando,
sem querer retornar a infância do caleidoscópio, o
fato de utilizarmos a dinâmica cartesiana não significa,
necessariamente, que tenhamos que tornar a modelagem filosófica
de Sócrates excludente. Pode, dependendo da abordagem que
se pretenda dar, ajustarmos um procedimento simbiótico entre
as duas vertentes de pensamento.
Não obstante, Von Oech, num momento de raro aforismo nos
deleita que o único limite da criatividade é a imaginação.
Mais ainda, a fase germinativa é um vale tudo. Von Oech
complementa da seguinte forma: “A verdadeira chave da pergunta
E SE, é a pessoa se dar a liberdade de sondar o possível
e o impossível e arriscar até o impraticável
em busca de idéias”.
Com relação à pergunta E SE a mantenho por
pratica há longos anos. Quando realizo trabalhos em grupos
com meus alunos na ULBRA, Fundação Getúlio
Vargas ou em Turim, crio, entre os membros do grupo, a figura do
CRI-CRI. Mas, o que vem a ser o CRI-CRI? Ao ler O Advogado do Diabo
de Morris West, observei o personagem do Padre Meredith. A Santa
Sé, ao elaborar um processo para beatificar ou canonizar
um pretenso santo, anexa todas as provas possíveis que legitimem
um milagre. Contudo, a própria Igreja Católica nomeia
um monsenhor cuja finalidade é tentar desmistificar as provas
do milagre. Esse padre, no livro denominado de Padre Meredith,
recebeu o apelido de Advogado do Diabo. Na realização
dos trabalhos em sala de aula ou fora dela, na ocasião em
que os grupos estão elaborando os cenários, a análise
do macroambiente e a do próprio Plano de Ação
Estratégico, peço que um dos alunos seja o Padre
Meredith. Ou seja, o CRI-CRI. Ainda que aparente uma brincadeira,
a finalidade, a tarefa desse aluno é justamente colocar-se
no lugar do concorrente e verificar quais respostas daria ao ambiente,
em função do impacto recebido pelo Plano de Ação.
Ao longo de minha vida profissional tenho pautado as atividades
em grupo por introduzir a figura do advogado do diabo.
Acredito piamente que não apenas os conceitos são
geradores do ganho do conhecimento. Exemplos, fatos ocorridos,
histórias, filmes cinematográficos, novelas e até piadas
ajudam a consolidar o conhecimento. E, nesse momento, ocorre-me
uma cujo autor não sei quem é. Reporta-se, de certa
forma, na cuidadosa escolha dos assessores. Ei-la:
Na Idade Média, certo rei, em determinado reinado, ia partir
para as cruzadas. Como desconfiava que a rainha dava suas escapadas
(só não sei se apenas na horizontal....pode ser que
a cabeça coroada alternasse com a vertical ), colocou-lhe
um cinto de castidade, fechou o cadeado e entregou a chave a seu
escudeiro.
—
Meu fiel escudeiro, disse o rei. Eis aqui a chave do cinto de castidade
da Rainha. Nunca Jamais entrega esta chave para quem quer que seja.
Nem mesmo para a Rainha (o Rei não era muito bom de vernáculo
e soltou um pleonasmo vicioso) .
—
Mas majestade, perguntou o escudeiro. E como a Rainha fará seu
processo de higienização?
—
Não te preocupa meu caro. O cinto foi fabricado pelo armeiro
do reino e dotado de cavidades que permitem uma adequação
ao banho da rainha.
Dito isso o rei partiu para a cruzada santa. Três dias depois,
envolvido por uma nuvem de poeira o fiel escudeiro chega afobado:
— Majestade! Majestade! O cinto Majestade. O senhor deixou a chave
errada....
QUAL O RECADO? CUIDADO NA ESCOLHA DE SEUS ASSESSORES
Retornando a Von Oech, ele faz duas colocações interessantes:“O
conhecimento é a matéria prima das novas idéias.
Porém, a verdadeira chave para tornar-se criativo está no
que você faz com o conhecimento que tem”
Essas colocações de Von Oech conduziram-me a leituras
passadas justificando minha colocação sobre fatos
ocorridos. Por ocasião de ler a biografia de Giusepe Verdi
duas situações entendi que se ajustavam ao pensamento
de Von Oech. Riccordi o editor de Verdi, há mais de 6 meses
vinha pedindo ao maestro que escrevesse Nabucodonosor. Ocorre que
Verdi, já rico e famoso, estava em profunda depressão.
Tinha perdido sua mulher e um dos filhos e não encontrava
motivação para trabalhar. Certa tarde em seu estúdio,
melancólico e prostrado, vê seus turvos pensamento
serem interrompidos pelo forte vento inesperado que abre, de forma
abrupta, uma de suas janelas. Rapidamente, levanta-se e fecha a
janela. Entretanto, ao levantar-se, de forma lépida, derruba
uma Bíblia que estava sobre sua mesa de trabalho. Ao retornar,
abaixa-se para pegar a Bíblia e nota que ela abrira-se,
justamente, nos Cânticos dos Hebreus. Nesse momento, nesse
exato momento, seus pensamentos penetraram em Moisés e seus
seguidores. Em paralelo, veio-lhe a mente toda a ópera e
compôs, no mesmo dia, Nabuco, que viria tornar-se sua obra
prima.
Duas lições podemos depurar desse fato:
a) Adiantaria a Verdi pegar a Bíblia, justamente nos Cânticos
dos Hebreus, se ele não tivesse um conhecimento prévio
sobre música? Ou seja, justificando Von Oech, o conhecimento
foi a matéria prima para a elaboração de Nabuco;
a) Um executivo, um técnico não pode apenas contar,
presumir que um fator aleatório (o vento abrindo a janela
do estúdio) venha solucionar suas dúvidas, otimizar
seu processo decisório. Para quem decide, independente do
nível hierárquico, o aleatório não
pode e nem deve fazer parte de seu dia-a-dia. Ao contrário,
deve constante e exauridamente buscar informações
para que possa tomar uma decisão o mais afastado possível
do erro.
A fim de evitar a mesmice de citar apenas Von
Oech, e ainda dentro do contexto da criatividade e da construção do conhecimento,
recorremos a Buzzi que tipifica, de maneira esquemática,
como se elabora o conhecimento. É bastante interessante
verificar que os exemplos alocados aos conceitos do autor, se coadunam
como se sofressem um processo de sinergia.
Para Buzzi, o conhecimento é elaborado através de
três vieses:
a) Na intuição: a intuição, na concepção
de Buzzi, é o ato de apresentação ou de percepção
da realidade. Não cria a realidade, percebe-a. James Stoner
nos dá um exemplo magnífico ocorrido na década
de 20. A Sears & Roebuck era uma grande empresa que vendia
seus produtos através de catálogos para praticamente
todos recantos dos Estados Unidos. Todavia, em 1920, Henry Ford,
considerando a crise automobilística da época (menção
feita por Alfred Sloan), resolveu popularizar a venda dos modelos
T. Dessa forma, uma expressão significativa da população
americana passou a comprar e utilizar automóveis Ford modelo
T. O presidente da Sears, na época Robert Wood, refletiu
que, com o aumento da frota de automóveis, as pessoas passariam
a visitar outras cidades. Sairiam mais da vida rural e se dirigiriam
para outros centros e, como conseqüência, veriam vitrines
e, inevitavelmente, teriam a compulsão de comprar os artigos
expostos em vitrines. Wood reuniu seus assessores e realizou um
estudo de viabilidade partindo da premissa que com o advento do
automóvel poderiam perder clientes. Após reuniões,
estudos de pontos de equilíbrio, cálculos de retorno
sobre investimentos, a equipe de Wood concluiu que deveriam, num
período de três anos, cobrirem as cidades pólos
americanas. Dois meses após, através de seus catálogos,
avisou sua clientela que a Sears & Roebuck, a cada três
meses, abriria lojas em cidades aglutinadoras dos Estados Unidos.
Enviando, ao mesmo tempo, um cronograma de implantação.
E, em 1923, a Sears estava presente, de certa forma, nos grandes
e médios centros urbanos. Alguns aspectos da tomada de decisão
de Robert Wood devem ser analisados: a capacidade de percepção
(tão enfatizada por Buzzi) e prospecção desse
executivo. Sua capacidade de reunir sua equipe e trocar idéias.
O risco dos investimentos. Mas, acima de tudo, sua percepção
que poderia perder alguns clientes, mas sua marca forte (Sears)
pulverizada no território americano, seria também
uma força de empuxe capaz de agregar novos clientes. E,
foi o que realmente aconteceu. Entretanto, a intuição,
a percepção de Wood foi sustentada por suas reuniões,
trocas de idéias, estudos de possibilidades. Não
foi pura e simplesmente intuitiva. A intuição, e
Tom Peters aborda esse aspecto com muita leveza, serviu como fator
complementar à percepção e basicamente aos
estudos realizados pelo executivo.
b) Na memória: cuja função é conservar
e lembrar o que já esteve ao alcance da intuição
sensível. Particularmente, em que pese ter uma boa memória,
quer em sala de aula, quer em colóquios ou mesmo conferências
profiro que, pessoalmente, a memória é secundária.
Valoro cada vez, de forma mais acentuada e aguda, a capacidade
de reflexão. O pensar, o observar, o processo de dedução,
o paradigma bem situado. Creio que em 2000 dando (não gosto
de conjugar o verbo dar), retifico, ministrando aulas de Planejamento
Estratégico no conveniado da Fundação Getúlio
Vargas em Uberlândia, explicitei à turma em que consistia
na empresa uma cultura diretiva (tendências absolutistas),
uma cultura de espírito de equipe (participativa), o significado
de Desenvolvimento Organizacional/DO (processo de mudança
planejada), objetivo (alvo que se pretende atingir), estratégia
(meios para se atingir o objetivo pré-determinado e fatores
tais como visão, missão, aspectos internos e externos).
Até aí tudo bem. No decorrer da semana seguinte,
recebi um e-mail. Era de um aluno, Eduardo Rezende (turma 02 de
Gestão Empresarial), fazendo um paradigma dos conceitos
mencionados, trabalhados e exemplificados em aula com o filme O
Gladiador. Eduardo situou o papel do gladiador dentro das seguintes
características:
? CULTURA DIRETIVA: poder absoluto do gladiador
pela patente, mas com muita competência;
? ESPIRITO DE EQUIPE: (num segundo momento) passar
para os gladiadores confiança de estar no caminho certo;
? DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL: processo de
mudança.
Ou seja, levantar o potencial (moral) humano;
? OBJETIVO: vingar no tirano a morte de sua família;
? ESTRATÉGIA: destacar-se como gladiador
até chegar
ao Coliseu para atingir seu objetivo;
? FATORES: visão, missão, aspectos
externos e aspectos internos.
Confesso que fiquei surpreso. Agradavelmente
surpreso. Ao longo de minha vida profissional sempre me debati
pela reflexão,
pela percepção. E ali, naquela cidade bucólica,
encravada no agradável Triângulo Mineiro, viera
a encontrar um jovem que teve a capacidade de elaborar uma simetria
entre os conceitos emitidos e um filme. No encontro seguinte,
após ter elaborado um slide, conforme expus acima, e com
o nome do aluno, cheguei em sala de aula apresentei-o aos demais
alunos e parabenizei Eduardo. Aliás, foi minha quinta
nota 10,0 (até aquela data) no decorrer dos anos que atuo
na FGV.
É
isto que objetivo em minhas aulas. A capacidade de reflexão
e percepção superando a capacidade de memória.
Vejam bem, não que a memória não contenha
seus méritos, contudo, numa ótica pessoal ela,
memória, é suplantada pela reflexão.
Um detalhe, na semana entrante, recebi de outros alunos da mesma
turma uma enxurrada de paradigmas com filmes. Evidentemente que
NÃO os considerei para a nota máxima. Valorei,
isso sim, a iniciativa do Eduardo.
c) Na experiência: Buzzi é enfático ao manifestar
que reside na experiência a síntese ordenada do material
das instituições sensíveis e da memória
e ponto de partida para conhecimentos mais elaborados. Volto a
lembrar-me de minha aluna Rita Burkark. Na maioria das vezes, ao
depararmos com conceitos dicotômicos, ficamos na opção
de eleger um ou outro pensador. No caso da experiência, há um
conflito brutal entre dois autores, Philip Kotler de um lado e
Charles Handy de outro. Kotler, hoje referência internacional
em Marketing nos diz que: “Devemos pegar nossa experiência
do passado e extrapola-la para o futuro”. Por outro lado
o senhor Charles Handy, referência mundial em comportamento,
enfatiza que: “Não podemos permitir que nosso passado,
por mais glorioso que seja, interfira em nosso futuro”. Creio
que não podemos estigmatizar. Não extremar. Um processo
simbiótico seria o mais adequado.
ENFOQUE SÓCIO TÉCNICO
Como foi constatado ao longo das escolas que formataram a Administração
em si, podemos verificar que, até o inicio da década
de 50, tínhamos posições bem delineadas. Isto é,
ou a teoria priorizava a produção/operacional ou,
ao contrário, valorava os recursos humanos/social/comportamental.
O Enfoque Sócio-Técnico, elaborado pelo Tavistock
Institute de Londres, através de Trist, procurou e conseguiu
ajustar as duas correntes até então predominantes
na vida das organizações. Elaborou, criou, estruturou
o que denominamos de ENFOQUE SÓCIO-TÉCNICO, que se
constitui no princípio de que uma organização
apresenta dois subsistemas. O Subsistema Social (SSS), cujo cerne
repousa na parte comportamental da empresa (seus recursos humanos)
e o Subsistema Técnico que é focado na parte operacional
(produtiva). Dessa forma, segundo Trist, as organizações
teriam um equilíbrio entre os dois subsistemas e, por extensão,
maior otimização. A questão, todavia, nos
remete a Teoria do Holon, de Koester (1945) ao afirmar que uma
empresa é estruturada através de pequenas células
e essas devem interagir entre si no sentido de manter um processo
interno de ajustamento. A conjugação da Teoria do
Holon de Koester e o Enfoque Sócio-Técnico de Trist
nos transporta para um outro problema crucial na vida das médias
e, principalmente, das grandes empresas: raramente verifica-se
um processo adequado de ajustamento. Quando esse ajustamento não
ocorre, a empresa deve recorrer a uma modelagem que, devido sua
temporalidade muitas vezes ser extensa demais, ocasiona uma insatisfação
tanto na área de produção (resultados), como
na área comportamental. Desses impasses acabou surgindo
uma modelagem denominada de DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL que
busca, justamente, manter o equilíbrio entre aqueles dois
subsistemas. Contudo, o D.O. não terá sentido sem
antes verificarmos a Cultura Organizacional predominante na empresa
e sua mobilidade e flexibilidade. Um dos instrumentos mais assertivos
sobre cultura organizacional foi desenvolvido pelo próprio
Tavistock Institute o qual identifica se a cultura é Neutra
(aquela que apresenta características de insegurança
por parte dos executivos), se é diretiva (centrada em princípios
que se reportam ao absolutismo), se é Protetora (a qual
poderá transforma-se em paternalista) e, finalmente, a denominada
de Espírito de Equipe (que em alguns casos direciona-se
para a consecução de feudos) ainda assim, essas duas últimas
poderiam ser descritas como empresa saudável, segundo Richard
Beckhard. É dever ressaltar-se que não há um
purismo no que tange à cultura organizacional. Dessa forma,
poderíamos cristalizar que nenhuma delas é, em sua
plenitude, completa. Qualquer que seja a intervenção
que se pretenda introduzir na empresa (novo sistema de custos,
nova planta industrial, adequação de logística,
treinamento dos recursos humanos, ou mesmo a elaboração
de um Planejamento Estratégico, etc...) é recomendável
que se faça um diagnóstico da cultura. Na eventualidade
de predominar uma cultura neutra (insegurança dos executivos
e por extensão dos demais funcionários). Deve-se,
a priori, implantar um processo de Desenvolvimento Organizacional.
Em síntese, a cultura organizacional pode e deve ser conjugada
como a soma total dos valores, costumes, tradições
e propósitos. Valores centrais de uma cultura organizacional
ambiental. Há um exemplo que costumamos comentar em sala
de aula ou mesmo em conferências. Aliás, esse exemplo
nos foi manifestado por um aluno dos cursos de MBA da Fundação
Getúlio Vargas, Mario Gandhini. Segundo esse aluno, que
era funcionário de uma usina açucareira, certa indústria
de creme dental, ao fazer suas compras de açúcar,
antes de olhar o produto em si, mantinha contato com os funcionários
e verificava a política de Recursos Humanos da empresa,
no sentido de avaliar, entre outros se os salários praticados
estavam de acordo com o mercado, quais benefícios eram destinados
aos funcionários, se a Usina cumpria suas obrigações
fiscais e, precípuamente, o bem estar de seu quadro de pessoal.
Após ter satisfeito seus valores intrínsecos é que
a indústria de creme dental ia analisar o açúcar
e, se fosse o caso, comprá-lo.
Entendia essa organização (compradora) que se o funcionário
da Usina estivesse satisfeito com sua empresa, inquestionavelmente,
o produto final seria de qualidade superior. A isso denominamos
valores da empresa e sua cultura organizacional.
Tornou-se um hábito, a fim de proporcionar melhor ganho
de conhecimento, comentarmos algumas situações verídicas
ou fruto de ficção (ganchos) que possam consolidar
um determinado conceito. Devemos ressaltar, que sempre que fizemos
uma abordagem conceitual procuramos traçar um paradigma
entre o pensamento de, no mínimo, dois pensadores. Além
disso, colocamos à disposição de alunos, ouvintes
e leitores exemplos reais no sentido de consolidar aquele conceito.
Mas, retornando aos ganchos, no que diz respeito à cultura
organizacional neutra (aquela que reflete uma insegurança
na postura dos executivos) costumamos fazer uma interação
com a ópera Madame Buterfley. Apenas para lembrar, Buterfly
teve um caso de amor, extraconjugal, com um tenente da Marinha
de Guerra Americana, Tenente Pinkenton, Esse relacionamento, e
a estória passa-se no século XIX, fere a cultura
feudal japonesa. Pinkenton promete retornar ao Japão para
casar-se. Realmente, segundo o libreto, retorna 4 anos após,
casado e sem saber que daquele relacionamento com Buterfly nascera
um filho. Buterfly, ao tomar conhecimento que o pai de seu filho
estava casado e sentindo a pressão dos hábitos e
costumes da sociedade japonesa da época, acaba cometendo
haraquiri. Nossa intenção em traçar um paralelo
entre a cultura neutra e o suicídio de Buterfly reside justamente
no fato de que se uma empresa manter uma cultura neutra e não
providenciar intervenções adequadas, sua sorte será selada
com o que denominamos de estado de insolvência. Isto se caracteriza
na medida direta em que uma empresa não apresenta uma postura
de tomada de decisão firme, segura. O pior é que
essa indefinição acaba afetando, atingindo aos demais
funcionários da empresa. Costumamos recomendar que quando
se detectar uma cultura dessa natureza não se deve aplicar
nenhum tipo de intervenção. O prioritário
reside justamente na aplicação do Desenvolvimento
Organizacional. Sendo que deverá começar pela cúpula
da empresa e passar por toda escala piramidal. No que concerne
ao Desenvolvimento Organizacional, no capítulo destinado
ao apêndice, reservamos um artigo sobre o tema.
A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO ESTRATÉGICO
A construção do conhecimento, em qualquer área
que se queira desenvolver, requer alguns pré-requisitos
que devam primar não apenas por patamares plausíveis
de serem atingidos, mas na tentativa de evitar pura e simplesmente
o ato de intuir. A possibilidade de brotarem idéias detentoras
de eqüidade e até de opulência criativa são
vertentes caudatárias da construção do conhecimento
e aqui pode-se fazer uma ressalva. Do conhecimento, pensamento
e reflexão estratégica. Buzzi nos dá uma visão
de como ele percebe as idéias. Para ele “A infinidade
de idéias dá conta da inesgotável riqueza
de nossas sensações. Todas as idéias promovem
o encontro do pensamento com os diversos aspectos do real”.
Em que pese a necessidade cada vez maior de nos imbuir do processo
de reflexão e desenvolvermos uma atividade mental criativa,
precisamos ter cuidado ao nos depararmos com a nossa verdade. A
verdade, quer mitológica, mítica ou o centro de nossos
pensamentos constitui-se, numa percepção de De Bono
em “um dos perigos mais óbvios da verdade é a
arrogância. Quando você acredita estar de posse da
verdade, pode exercer o direito de oprimir outros que pensam de
maneira diferente”.
O conhecimento erudito ou adquirido por meio do dia-a-dia laboral
e, através dele, a reflexão é composto não
apenas por conceitos, ainda que de pensadores que merecem toda
consideração, mas também por processos interface
entre segmentos que merecem um processo analítico. Dessa
forma, poderíamos inferir que quatro elementos são
basilares para a espiral do conhecimento: a socialização,
a externalização, a internalização
e a combinação.
Na socialização contemplaríamos o compartilhar
experiências, o treinamento prático (conhecido no
meio acadêmico com on the job), e o brainstorming (quer através
da dialética ou da fertilização cruzada).
Em síntese, a socialização poderia ser resumida
na intenção e atuação de trabalhar
cooperativamente com outras pessoas, de ser parte da equipe. Aproximadamente
dez anos passados, realizamos uma consultoria num grupo denominado
(hipoteticamente) de GAMA. Esse grupo estava diversificado em 11
empresas. Era composto, entre outras, por supermercados, engenho
de arroz, revenda de automóveis, etc. O detalhe é que
o proprietário evitava que as dificuldades de uma das empresas
fossem do conhecimento das demais e, assim, sucessivamente. Antes
de iniciarmos as ações estratégicas, como
de hábito, realizamos uma diagnose da cultura da empresa.
Predominou, com 87% de pontuação, uma cultura Diretiva
(ou seja, absolutista). Após longas reuniões com
o Presidente e diretores, conseguimos clarificar para o Executivo-mor
do grupo GAMA da necessidade de uma comunicação mais
intensa entre as diversas empresas. Fomos enfáticos na prioridade
da democratização (hoje o termo socialização
está mais em voga no Brasil) da informação
sob pena, e aqui faço uma analogia, de presenciarmos entre
os funcionários um processo de felonia. A partir de então,
quinzenalmente, cada empresa dispunha de duas horas para numa reunião
com as demais empresas do grupo (deve-se ressaltar que integravam
as reuniões somente Diretores e Gerentes), compartilharem
seus pontos fortes, fracos, ameaças e oportunidades. A primeira
hora era destinada à exposição e a hora residual
ficava disponível para comentários e sugestões
dos demais participantes. O resultado, já esperado por nós,
foi que as empresas do Grupo GAMA passaram a conhecer-se com mais
profundidade. A perceberem que não se constituíam
numa “ilha isolada”, que muitas das dificuldades encontradas
eram similares e, mais ainda, que com a troca de idéias
(o que denominamos de Fertilização Cruzada segundo
o Dr. Antonio Rubbo Müller) poderiam ajudar-se e solucionar
problemas. Um aspecto merecedor de atenção ocorreu
quando os diretores perceberam que estavam elaborando, indiretamente,
o Planejamento Estratégico não apenas de suas empresas,
mas possibilitando que o Grupo GAMA também o fizesse. Ao
final, o imagético passou a ser uma constante no Grupo.
Na externalização, a qual pode ser delineada por
metáforas, por analogias (como quando definimos uma similitude
entre a cultura Neutra e a tragédias da Madame Buterfly).
Um outro aspecto merecedor de referência direciona-se ao
diálogo ou reflexão coletiva. Poderíamos simplificar
que a externalização é uma das chaves para
a criação do conhecimento, mais precisamente, criar
conceitos novos e explícitos a partir do conhecimento tácito.
Com relação ao diálogo e reflexão coletiva,
tivemos oportunidade de verificar que esses procedimentos, em muitas
ocasiões foram proativos no Grupo Extremo Sul. Esse Grupo,
cujo presidente é o hoje Deputado Federal Érico Ribeiro,
tinha por costume todas as manhãs (diretores, assessores
e alguns gerentes) reunir-se de forma informal, aleatoriamente,
na sala de um dos diretores para um café descontraído.
Ali se discutia de tudo, futebol, anatomia feminina, crises mundiais
etc... Porém, jamais numa dessas reuniões diárias
(e tivemos oportunidade de atuarmos no Extremo Sul por 5 anos),
saiu-se sem a solução para um problema. Independente
de que empresa fosse (eram 23 que integravam o Grupo naquela ocasião).
Ou seja, ao natural, sem o ranço acadêmico, praticávamos
uma reflexão coletiva. Muitas das decisões de ponta
do Grupo foram ali postuladas. Quando, ocasionalmente, algum diretor
ou assessor começava a deblaterar, ainda que efêmero,
logo em seguida os demais acalmavam os ânimos daquele personagem.
A exemplo do Grupo GAMA, essas reuniões ocorridas no Grupo
Extremo Sul, tem-nos servido de exemplo em sala de aula (Fundação
Getúlio Vargas) e em nossas conferências. Reiteramos
que a reflexão coletiva deve pautar por ser, inesgotavelmente,
informal em toda a plenitude que o vocábulo possa comportar.
Na internalização podemos contemplar de forma eloqüente
o Modelo Construtivista. Esta postura não invalida os Modelos
Condutista e Funcional. Ocorre que a vida íntima de cada
organização é que direcionará qual
dos Modelos ajusta-se mais a sua condição atual.
Isto não se constitui, necessariamente, em fator excludente
para que, no futuro, a empresa possa optar por outra modelagem.
No Modelo Construtivista, ou seja, aprender fazendo (on the job),
poderemos potencializar as capacidades inerentes a cada empregado
(colaborador, recursos humanos, talentos humanos, empregados, seja
lá a denominação que for). Através
desse mecanismo, a empresa viabiliza a criação do
conhecimento organizacional. Ou, sendo mais pragmático,
essa criação do conhecimento organizacional comportando
em si mesma a capacidade de identificar problemas, presentes ou
futuros, obstáculos e oportunidades. E, em assim sendo,
compreender a essência do binômio já comentado
anteriormente da percepção x prospecção.
Todavia, impõe-se explicitar, que a internalização,
necessária e imprescindível, jamais deve se constituir
num fim em si mesma. Indubitavelmente, a empresa deverá pautar
por duas situações primordiais:
a) conhecer-se a si mesma. E esta colocação, como
a máquina do tempo, conduz-me a um passado alegre e descontraído.
Por ocasião das aulas de História do Silvininho (Dr.
Silvino Joaquim Lopes Neto – Colégio Gonzaga) que,
ao falar-nos sobre Mitologia, salientava que no frontispício
do Oráculo de Delphus estava escrito CONHECE-TE A TI MESMO.
Sabe-se, modernamente em Estratégia, que a prioridade das
organizações é detectar seus pontos fortes
e seus pontos fracos. Isto é, conhecer-se a si mesmo em
primeiro plano. A explicação é lógica.
Ao conhecer os Pontos Fracos, a empresa envidará seus esforços
no sentido de depurá-los. Como conseqüência,
ao depurá-los, diminuirá suas fraquezas e, simultaneamente,
amenizará o impacto das ameaças externas. Ato contínuo
potencializará seus Pontos Fortes. Reitero que a lógica
do raciocínio centra-se que pontencializando seus Pontos
Fortes poderá acabar de vez com as Ameaças. Mais
ainda, terá condições de efetuar um efeito
sinérgico nas Oportunidades que a ambiência externa
está oferecendo. Em síntese: a internalização,
o conhecer-se a si mesma, simboliza o cerne da empresa.
b) Facilitar a comunicação. Ao longo de minha vida
profissional tive oportunidade de realizar 77 consultorias. Duas
situações foram traumáticas: a avidez do empresário
em querer implantar de imediato O Plano de Ação Estratégico,
sem antes efetivar uma coleta de informações adequada
e a comunicação interna inadequada. A comunicação
distorcida foi responsável pelo insucesso de implantação
de aproximadamente 54% das empresas que trabalhamos como consultores.
Reside aqui um ponto nevrálgico. Ou o consultor impõe
uma dinâmica sistemática de fluir as informações
ou, e isto, às vezes é lamentável, não
realiza sua consultoria. Ou o empresário confia na capacidade
do consultor ou, que com sua equipe, desenvolva seus projetos.
A comunicação, além de repousário de
incertezas poderá ser caudatária do embrião
de criar organizações informais antagônicas às
organizações formais.
Na combinação encontraremos a forma de raciocinar
de maneira interpolativa entre o conceitual e o analítico
desprovido de paradigmas. Nesse sentido, poderemos deduzir que
o academicismo deixará de ser um fator primordial no contexto
da combinação. Tal raciocínio nos conduz aos
cursos de MBA, seja lá em que país for, como espiral
do conhecimento desprovido do ranço acadêmico. Mas
centrado, principalmente, nas experiências interativas entre
professores e alunos e entre os próprios alunos. Em Santo
André, num dos conveniados da Fundação Getúlio
Vargas, a STRONG, tivemos oportunidade de encontrar numa prova
da aluna Rita de Cássia Burkart (turma ABC/GE 28) uma frase
que nos fez pensar e analisar mais detidamente: “A especialização
abre caminhos para o aprimoramento, a inovação e
o refinamento de idéias e conceitos”.
Ora, despertou-nos atenção a colocação “refinamento
de idéias e conceitos”. Reside, aqui, com toda a intensidade
possível, que o vocábulo possa contemplar um dos
pontos cruciais da reflexão e do pensamento estratégico
e, conseqüentemente, da administração. Justamente
a falta de trabalhar-se com conceitos. Observamos na vida acadêmica,
e mesmo na de consultoria, que as pessoas não estão
preocupadas com os conceitos. Querem ir direto à ação
propriamente dita. Mais tarde, como robotizados, ficam inseguros
quanto ao rumo a seguir. O refinamento das idéias e os conceitos
são precedentes de qualquer modelagem que se queira implantar
numa organização.
O LIMIAR DO OCASO?
Finalmente, vale ressaltar que nenhuma organização,
independente de seu porte, terá sucesso em seu Planejamento
Estratégico se não ocorrer um comprometimento. Mas,
poderão perguntar, comprometimento de quem? De todos. Desde
o Executivo-mor da organização até a base
da pirâmide. Este comprometimento deve se pautar inclusive
pela capacidade do subalterno (não gosto deste termo) de
divergir de sua chefia. Junto ao comprometimento o diálogo
e a comunicação são fatores imprescindíveis
ao sucesso da empresa. Em não acontecendo tais procedimentos,
ocorrerá na organização o limiar do ocaso.
Ou, simplesmente, o início do fim.
DUAS ESTRELAS
Esta colocação final sempre efetuo quando encerro
minhas conferências:
Era uma vez um casal. Ele padeiro, mais tarde motorista de táxi.
Ela, dona de casa. Tiveram um filho. Com amor, carinho e muito
sacrifício o educaram.
A este casal, Manoel e Morena, meus pais já falecidos, eu
agradeço a oportunidade que me deram no passado de estar
aqui e agora na presença dos senhores.
Clóvis Massaúd da Silveira.
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