Os artigos dessa seção serão trocados periodicamente. Eles poderão ser utilizados em parte ou no todo, desde que respeitando a autoria.

PERFIL ESTRUTURAL ORGÂNICO DAS COOPERATIVAS DE TRABALHO DA REGIÃO METROPOLITANA DE PORTO ALEGRE


Clóvis Massaúd da Silveira

Doutor em Administração de Empresas - FESP/USP
Mestre em Geopolítica e Desenvolvimento Econômico - FESP/USP
Professor Adjunto da Universidade Luterana do Brasil - ULBRA
Centro de Ciências Empresariais, Políticas e Sociais
Departamento da Administração
Rua Miguel Tostes, 101; Bairro São Luiz; C.P. 124 - CEP 92420-280 - Canoas / RS


1) INTRODUÇÃO

Nos últimos cinco anos (5), mais precisamente após a implantação do Plano Real e a abertura das importações entre sociedades do Mercosul e extra continentalidade, o desemprego, quer estrutural ou conjuntural, foi tomando proporções dantescas e preocupantes. A região Metropolitana de Porto Alegre, a exemplo dos demais centros do país, percebeu de imediato a síndrome da crise laboral. Nesta Região, incluindo-se aí a periferia do Vale do Rio dos Sinos, onde de certa forma, entre outros, o setor coureiro calçadista era imbatível, a situação ficou ao nível do desespero.

O fechamento de empresas ocasionou um decréscimo econômico desconfortável, significativo e assustador. Outras organizações, em percentual eloqüente, tangenciam a ruptura. Isto é, em estado de pré insolvência. Em assim sendo, e como conseqüência caudatária, constatou-se um quadro aterrador numa amplitude polidimensional: as empresas, a ambiência, a arrecadação por parte do governo, os fornecedores e inevitavelmente o aumento do desemprego. Numa análise rápida e sem pragmatismo pode-se afirmar que se constituiu num processo erosivo por parte da sociedade (ainda que localizável setorialmente). Os comentários no que diz respeito aos fatores determinantes são díspares e contraditórios.

Não obstante, através da obstinação de certas pessoas, tentou-se dar uma nova dimensão ao quadro presente. Ou seja, ex funcionários de empresas aglutinaram-se e começaram a formar cooperativas de trabalhadores na tentativa de amenizar o impacto do fechamento de fábricas e empresas comerciais. Porém, no que concerne ao referencial conceitual verificou-se uma confusão inicial entre cooperativas de serviços e cooperativas de trabalhadores.

A Organização Internacional do Trabalho, através da publicação MATCOM - Capacitação para a Gestão de Cooperativas, de autoria de Malcolm Harper define que a "finalidade das cooperativas de trabalhadores não é proporcionar serviços a seus sócios, mas uma fonte de trabalho. Os sócios de uma cooperativa de trabalhadores trabalham nela e, são os proprietários dela". Por outro lado o próprio autor salienta que as cooperativas de serviços existem para prestar serviços de comercialização, fornecimento, aluguel de equipamentos, crédito e outros serviços similares aos sócios. Deve-se considerar que as cooperativas de serviços são abundantes e contemplam uma boa experiência de atuação.

Em contrapartida as cooperativas de trabalhadores são praticamente embrionárias e encontram-se desprovidas de uma otimização na capacitação de seus quadros diretivos e operativos.

Realizada essas considerações iniciais, devemos adentrar na razão de ser da pesquisa propriamente dita. Ou seja, qual o perfil das cooperativas de trabalhadores de Região Metropolitana de Porto Alegre? Como foi efetivada sua(s) implantação(ões)? Quais seus aspectos legais e embasamento filosófico? E, finalmente, qual a gestão estratégica praticada (incluindo-se aí a cultura organizacional, mobilidade e flexibilidade do grupo frente a um processo de mudança, processo de interação entre as áreas funcionais e o papel da gestão para a colimação dos objetivos previstos).

Tais turbulências e a característica pouco praticada de tal exemplo de cooperativa, tendem, inevitavelmente, a desarticular qualquer pretensão de elaborar-se uma política adequada ao setor. Isto de forma preliminar. Estas afirmativas nos direciona indelevelmente a uma reflexão. Como analisar o segmento das cooperativas de trabalhadores da Região Metropolitana de Porto Alegre apenas sob o ponto de vista econômico, quando outras modalidades de cooperativas encontram-se em situação de liquidez exemplar? Ou, e a interrogação fica mais contundente, teremos a presença de outras variáveis? Apenas hipotizando-se: gerenciamento inadequado?

A proposta do presente trabalho foi identificar e avaliar, dentro de uma concepção mais adequada possível, quais vetores que nortearam o gerenciamento e comportamento dos associados das cooperativas de trabalhadores. Outro aspecto, também relevante, foi detectar-se as fragilidades e os pontos otimizáveis das cooperativas a fim de tomarem-se medidas possíveis para amenizar a agudez atual do desemprego na região Metropolitana de Porto Alegre.

Para tanto foi necessário identificarmos as origens da criação das Cooperativas de trabalhadores e sua respectiva situação atual.

Esta reflexão nos direcionou a uma questão desdobrada em três itens. Vejamos:

1) Pela conjuntura nacional?

2) Pela falta de uma ação política por parte da Federação e Organização das Cooperativa do Estado do Rio Grande do Sul?

3) Pela gestão desenvolvida e mantida pelas cooperativas?


2) METODOLOGIA DESENVOLVIDA

A fim de detectar-se com segurança uma pesquisa desta natureza, o recomendável é que se trabalhasse com dez por cento (10%¨) de amostra. Elegemos cinqüenta cooperativas (50) o que significou vinte e sete por cento (27%) das cooperativas de trabalhadores registradas nas Organizações das Cooperativas do Estado do Rio Grande do Sul - OCERGS, o que, cientificamente, apresentaria um elevado grau de segurança. Mais ainda, refletiria uma proporção dentre os vários segmentos existentes em relação a tipologia, a localização e a distribuição geográfica. Porém, retornaram matrizes, questionários e exercícios complementares de apenas trinta e oito (38) cooperativas de trabalhadores dos cinqüenta (50) enviados, culminando com uma amostra de vinte e um por cento (21%). Considerado, ainda assim, como amostra considerável. Dos aproximadamente 25.000 associados a cooperativas de trabalhadores, nessa pesquisa observou 2.894 associados de 38 Cooperativas de.Trabalhadores..

Ao longo do projeto, e como forma caudal, desenvolveu-se uma práxis metodológica que nos capacitou, através de uma fonte cíclica e científica de informações (método delphi de cenários, matrizes analíticas de cultura organizacional, matriz de gestão aplicada, instrumentos de mensurar o nível motivacional dos associados e questionários diversos), traçarmos o perfil econômico e financeiro das cooperativas de trabalhadores da Região em estudo. Tais informações , devidamente analisadas, foram fundamentais para a identificação dos problemas mais emergentes que acusaram os eventos mais graves por que passam atualmente um percentual significativo das cooperativas de trabalhadores, oque, enfim, permitiu subsidiar a tomada de decisão num aspecto tridimensional:

a) Pelo poder público federal (conjuntura nacional e política econômica);

b) Pelas federações (carência de uma ação política mais consistente); e,

c) Pelas diretorias das cooperativas de trabalhadores (através dos padrões de gerenciamento)


3) IDENTIFICAÇÃO E ANÁLISE DOS ASPECTOS ITEMIZADOS

3.1 Pela Conjuntura Nacional

Constatou-se o agravamento, como expressão contínua e intensa, a situação do desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre. Ou seja, o estado de ruptura social em que se encontra um percentual significativo de desempregados.
Não se tratou de compor, na pesquisa efetivada, todo um quadro comparativo e analítico crítico em termos nacionais; mas, apenas dentro do pragmatismo necessário, o fenômeno como tal, localizado dentro da área pré-determinada como objeto da pesquisa desenvolvida, não desprezando obviamente, o cenário riograndense e o registro de conotações com outros estados brasileiros.

Oportunizou-se, de forma inconteste, um projeto que contemplasse proposições exequíveis para a cognose do quadro atual, em todas suas dimensões e o prognóstico correspondente, e , mediante instrumentos indicativos como pertinentes, contemplar-se e conter-se, sempre que possível, o estágio perturbador da situação.


3.2. Pelas Federações (carência de uma ação política mais consistente)

Por longo tempo as Organizações das Cooperativas dos Estados (principalmente OCERGS - Organização das Cooperativas do Estado do Rio Grande do Sul e OCEPAR - Organização das Cooperativas do Estado do Paraná) centraram suas atenções para as cooperativas de grãos ou melhor tipificando, as cooperativas agro-industriais. Porém, por razões várias muitas delas não tiveram sucesso e acabaram sendo absorvidas por outras congêneres de maior porte ou, o que se constituiu em fato lamentável, foram adquiridas por organizações sem cunho cooperativo.

No caso das cooperativas de trabalhadores o que se verificou através da pesquisa e análise, foi que muitas empresas ao sentirem a crise provocada também pelo Plano Real e a liberação das importações de produtos similares da Ásia despediram seus empregados e os orientaram a criarem cooperativas de trabalhadores. Em última instância, sugeriram que criando-se cooperativas de trabalhadores as Empresas afetadas pela crise teriam seu custo operacional sensivelmente reduzido na medida direta em que terceirizassem seus serviços. Ipsum facto os ex empregados não ficariam ao sabor amargo da falta de renda para sustentarem suas famílias nem (e cabe aqui um momento de reflexão por parte do Estado) perderiam o que se entende por sentimento de cidadania.
Ditas estas considerações iniciais , aborda-se agora a ação da Organização das Cooperativas do Rio Grande do Sul e Federação do segmento em questão. Até que ponto estas entidades contribuíram efetivamente para uma orientação sustentável no sentido de estruturar-se uma cooperativa de trabalhadores dentro dos princípios filosóficos, legais e execução de gestão? O retorno que se teve é que as entidades mencionadas além de pouco orientarem aqueles desempregados e pessoas interessadas na criação de uma entidade cooperativa ,pouca atuação tiveram no sentido de clarificar o real sentido cooperativo.

Compreende-se a aderência imediata dos desempregados em criarem cooperativas sem preocuparem-se, naquele momento, com a legislação pertinente. Entre elas no que concerne as leis sociais e demais tributos.

O que se observou na pesquisa é que um percentual significativo (73%) estão desorientados e frustrados por saberem que não estão sendo contemplados com férias, décimo terceiro salário e fundo de garantia por tempo de serviços. Constata-se aqui a falta de uma orientação mais sugestiva. Evidente que foi passada a idéia que os cooperados são "donos" da cooperativas. Todavia, o que mais salientou-se na pesquisa foi a dura realidade de alguns empresários , no intuito de diminuir sua carga de impostos, sugeriam a criação das cooperativas de trabalhadores sem o devido respaldo de tarefas. Isto é, ficaram a mêrce dos "pedidos" de seus ex patrões.

O que fica evidenciado foi a falta de um direcionamento adequado no que se constitui realmente uma cooperativa. Principalmente uma cooperativa de trabalhadores. Simultâneamente, verificou-se a falta de uma ação política junto a entidades classistas patronais e órgãos do governo no sentido de um amparo legal aos associados dessas cooperativas. Mais ainda, o ingresso de empresários transmutados em cooperados a fim de aumentarem seus lucros (o que dentro do enfoque capitalista não é funesto) ferindo , entretanto, os valores sociais e filosóficos dos princípios de Robert Owem. Neste sentido vale ressaltar o parecer de Virgilio Perius, um dos juristas de renome no segmento cooperativo, quando recomenda que a nova lei terá que contribuir para a estruturação interna das cooperativas contemplando entre outros dispositivos que "a proibição de ingresso dos agentes de comércio e empresários no quadro das cooperativas, cuja regulamentação continua na forma da legislação vigente " (Périus-1995). Ratifica-se, assim, a falta de uma ação política consistente por parte das entidades que coordenam as ações das cooperativas, incluindo-se aí as de trabalhadores.


3.3. Pela ação das Diretorias (padrões de gerenciamento)

Amostra 38 cooperativas de trabalhadores compreendendo 2894 associados

Reside aqui um dos pontos inquietantes da pesquisa. Isto é, a gestão praticada nas Cooperativas de Trabalhadores. Num primeiro momento a preocupação foi analisar a cultura organizacional praticada pelas cooperativas, após elencarmos alguns quesitos integrantes das atitudes e opiniões gerenciais. Prosseguindo verificamos a tipologia de gestão praticada nas cooperativas.

Numa concepção moderna de gerenciamento o ideal seria que as cooperativas de trabalhadores tivessem uma noção básica do cooperativismo empresarial, o que , de certa forma, parece ferir os procedimentos filosóficos do processo cooperativo. Contudo, não trata-se, pura e simplesmente, do enfoque meramente empresarial. Vale lembrar a socióloga Terezinha de Castro Oliveira ao manifestar que "Para a cooperativa, que é uma empresa comunitária, possa avançar e se alicerçar, deve ser permanente a preocupação com a formação de seus dirigentes, associados e funcionários. Por ser uma empresa de características diferentes, seus associados são ao mesmo tempo donos e trabalhadores. Como donos, têm de se preparar para gerir a cooperativa e, como trabalhadores, têm de estar constantemente se reciclando, a fim de que sejam os melhores profissionais da àrea"

Esta visão da socióloga tangencia ao ideal dos procedimentos cooperativos. O que a pesquisa desenvolvida em trinta e oito (38) cooperativas de trabalhadores da Região Metropolitana de Porto Alegre, abrangendo dois mil oitocentos e noventa e quatro (2.894) associados revelou que o quadro atual esta longe daquele ideal preconizado.
Outro ponto relevante é a interação entre a cooperativa e o ambiente na qual ela está inserida. Em artigo publicado em Cadernos CEDOPE afirmamos que " A organização que não adequar-se ao ambiente, inevitavelmente, terá dificuldades de sobreviver num mercado competitivo e com uma plêiade de concorrentes. Fatores caracteristicos do momento atual (Massaúd-1995). Constatou-se agora, 1999, que o cenário atual extrapolou aquele percebido em 1995.


4) Aplicação dos Instrumentos de Análise e respectivo diagnóstico


4.1. Cultura da Organização

Cultura Organizacional são hábitos e costumes mantidos e praticados pela Organização (no caso em pauta pelas cooperativas de trabalhadores), independente de sua concepção orgânica (formal ou informal). A cultura organizacional significa, reflete o espelho gerencial da cooperativa. Não se trata de ter-se uma tipologia padrão melhor ou pior. Trata-se, isto sim, de um processo emanado pela cúpula da empresa (cooperativa) o qual, invariavelmente, vai refletir nos atos e práticas dos demais associados.

A pesquisa nos apresentou a seguinte pontuação no item Cultura Organizacional e sua respectiva predominância, no caso em pauta a cultura diretiva. Ou seja, segundo a matriz do Tavistock Institute Cultura com Ambiente Diretivo reflete que a organização/cooperativa "TENDE A HAVER POUCA PARTICIPAÇÃO DOS SUBORDINADOS NAS DECISÕES DA ORGANIZAÇÃO. O PODER TENDE A CONCENTRAR-SE NAS MÃOS DA ALTA ADMINISTRAÇÃO. OS SUBORDINADOS (no caso, os associados) APENAS EXECUTAM AS ORDENS RECEBIDAS , SEM GRANDES POSSIBILIDADES DE EXERCER CRIATIVIDADE OU DE INOVAR. NÃO LHES É PERMITIDO ESCOLHER, GERALMENTE, COMO FARÃO O TRABALHO, DE VEZ QUE AS ORDENS VINDAS DE CIMA É QUE DETERMINAM COMO DEVERÃO FAZÊ-LO. PODE HAVER SÉRIOS DESCONTENTAMENTOS NA BASE DA PIRÂMIDE ORGANIZACIONAL, MAS SÃO EM GERAL DESCONTENTAMENTOS CAMUFLADOS E OCULTOS DO PESSOAL DE CHEFIA, UMA VEZ QUE OS SUBORDINADOS (associados) TEMEM PUNIÇÕES. INDIVÍDUOS MUITO AUTÔNOMOS E AGRESSIVOS PROFISSIONALMENTE SOMENTE SE DARÃO BEM NESTA ORGANIZAÇÃO SE OCUPAREM POSIÇÕES DE PODER NA HIERARQUIA. EM POSIÇÕES SUBORDINADAS, TENDERÃO A SAIR OU CRIAR PROBLEMAS".

CULTURA DETECTADA
NÚMEROS ABSOLUTOS
PERCENTUAIS
%

Diretiva
17
44.9%
Protetora
09
23.6%
Espírito de Equipe
08
21.0%
Neutra
04
10.5%
TOTAL
38
100%

4.2. Mobilidade e Flexibilidade (M&F)

Aqui procurou-se verificar o grau de mobilidade e flexibilidade (M&F)das cooperativas.Ou seja, sua agilidade operacional e funcional frente a um processo de mudanças. Deve-se considerar que modernamente as empresas devem estar em constante observação da ambiência externa, na qual as cooperativas de trabalhadores estão inseridas, a fim de dar uma resposta imediata às manifestações ambientais de fora da cooperativa.
Não obstante, além da M&F, pela matriz podemos detectar o nível de reação que a cooperativa, via associados-trabalhadores e funcionários , terão ou não, frente a um processo de mudança planejada. Este item (reagente/não reagente), ao contrário da cultura e da M&F, não é conclusivo. Pode-se considerá-lo inicialmente meramente especulativo. Serve apenas como indicativo que será confirmado através de outros aplicativos mais contundentes no processo de diagnose.

No quadro abaixo encontra-se a tabulação da Mobilidade e Flexibilidade das trinta e oito (38) cooperativas de trabalhadores.

Predominou, com um diferencial bastante significativo um percentual de 47,3% com trinta pontos (30), ou seja, o grupo é reagente frente a um processo de mudança. Considerando a cultura diretiva, isto demonstra e confirma o grau de insatisfação da grupo pesquisado. Ou seja, qualquer procedimento de intervençaõ planejada que a direção quisesse introduzir na cooperativa, seria , discretamente boicotado. Tal posicionamento nos direciona de forma caudatária a um processo inegável de trabalhar-se a "cabeça" da direção das cooperativas e , simultâneamente, criar mecanismos motivacionais nos associados. Cumpre ressaltar que a pontuação minima seria de 35 pontos. Ainda assim, dever-se-ia trabalhar a direção da cooperativa.

PONTOS
NÚMEROS ABSOLUTOS
PERCENTUAIS
%

25
08
21.3%
30
18
47.3%
35
09
23.6%
40
03
7.8%
TOTAL
38
100%

Fonte: Clóvis Massaud (1999)

4.3. Atitudes e Opiniões Gerenciais

Esta matriz embora identifique vinte (20) itens a serem analisados na organização, apresentou em suas respostas apenas sete (7) indicativos. Originariamente conduz a um processo analítico em três àreas substanciais da organização: problemas de liderança, problemas de valores e problemas de estrutura. Na análise efetuada nas cooperativas de trabalhadores constatou-se que , exceção a percepção do meio ambiente que predominou como ponto forte com 60,5%, os demais indicativos encontram-se como pontos fracos. Isto nos conduz a uma reflexão do processo de reformulação orgânica e diretiva que deverá ocorrer nas cooperativas de trabalhadores da Região Metropolitana de Porto Alegre.

A falta de habilidade dos executivos e falta de controles se afiguram como pontos fracos bastante preocupantes. Porém, a falta de comunicação e/ou comunicação inadequada mais o sistema de processo decisório são outros pontos considerados com certo grau de fragilidade.

INDICATIVOS
PONTOS FORTES
%
PONTOS FRACOS
%
PONTOS INCONTROLÁVEIS
%
Comunicação
05
13.1%
25
65.6%
08
21.3%
Habilidade dos Executivos
04
10.5%
27
71.0%
07
18.5%
Definição de Objetivos
03
7.8%
23
60.5%
12
31.7%
Estrutura Orgânica
10
26.3%
22
57.8%
06
15.9%
Percepção do Meio Ambiente
23
60.5%
07
18.5%
08
21.0%

Fonte: Clóvis Massaud (1999)

4.4. Liderança

Não cabe aqui uma explicação acadêmica do ideal de liderança, das características pelas quais deve pautar-se a ação de um líder. No presente artigo resultado de uma pesquisa de campo, objetivamos a aplicabilidade desenvolvida pelos executivos passíveis das análises já mencionadas.

As modernas correntes de administração preconizam os procedimentos que os líderes devem adotar. Isto é a busca constante do equilíbrio entre os dois sub sistemas que formam uma organização. Tal corrente de pensamento, é repousário do Enfoque Sócio Técnico (Trist-1960) que preconiza que toda e qualquer organização, independente de sua tipologia, deve manter dois sub-sistemas. O Sub Sistema Social que preocupa-se com a área comportamental e o Sub Sistema Técnico , cujo enfoque é centrado na produção. Todavia, o que o executivo deve perceber e desenvolver em sua organização é que esses dois sub sistemas devem manter um nível de equilíbrio entre si. Em não ocorrendo tal situação teremos duas vertentes preocupantes. Se o enfoque salientar-se mais no Sub Sistema Social, corre-se o risco de termos uma organização centrada no paternalismo. Por outro lado, se verificarmos que o enfoque predominante visualiza o Sub Sistema Técnico, provavelmente a organização direcionar-se-á mais em direção a produção, e, concludentemente, não valorando os recursos humanos da empresa (ou no caso em pauta, as cooperativas de trabalhadores). Ambas situações não são consideradas saudáveis para a cooperativa. (Richard Beckhard. – 1982)

A pesquisa nos indicou que cincoenta por cento (50%) concludentemente das cooperativas de trabalhadores apresentam um estilo de liderança centrados em Tarefas. O que, coincide com a cultura organizacional predominante que é a diretiva. Mais ainda, a pesquisa também enfatizou como ponto fraco prioritário a falta de habilidade dos executivos das cooperativas. Observa-se, num primeiro momento, através da aglutinação de indicativos que o estágio atual nas cooperativas está fortemente agregado a capacidade de gestão aplicada e desenvolvida.

ESTILO DE
LIDERANÇA

NÚMEROS ABSOLUTOS
PERCENTUAIS
%

Centrado em Tarefas
19
50.0%
Centrado em Pessoas
09
23.68%
Igualdade entre
Tarefas e Pessoas

10
26.32%
TOTAL
38
100%

Fonte: Clóvis Massaud (1999)

4.5. Amostra de Renda (2894 associados)

Com relação as faixas mensais de retiradas de numerário (no caso dos associados de cooperativas não existe a figura do salário), observa-se que predomina , com larga margem de diferença em relação a segunda escala pontuada, um valor de até R$200,00 (duzentos reais mensais). Outro aspecto a considerar e que já está manifesta ao longo deste artigo é que os cooperados não são contemplados com férias remuneradas, décimo terceiro e fundo de garantia por tempo de serviço. Mais ainda, devem recolher o INSS como se autônomos fossem. O que acarreta um decréscimo significativo na sua renda mensal. Vamos postergar para a fase de conclusões , outras considerações sobre a renda dos cooperados.

REMUNERAÇÃO
NÚMEROS ABSOLUTOS
PERCENTUAIS
%

Até R$ 200,00
1.342
46.37%
De R$ 201,00 até R$ 400,00
626
21.64%
De R$ 401,00 até R$ 600,00
462
15.96%
De R$ 601,00 até R$ 800,00
313
10.82%
Acima de R$ 801,00
151
5.21%

Fonte: Clóvis Massaud (1999)


4.6. Nível de escolaridade

A amostra nos revelou que 65,78 dos pesquisados possuem o segundo grau completo. Talvez resida aí, a impraticabilidade de procedimentos gerenciais modernos, refletindo dessa forma uma gestão mais intuitiva do que racional propriamente dita.

NÍVEL
NÚMEROS ABSOLUTOS
PERCENTUAIS
%

Analfabeta
0
0
1º grau incompleto
0
0
1º grau completo
1
2.64%
2º grau incompleto
4
10.53%
2º grau completo
25
65.78%
Superior incompleto
5
13.16%
Superior completo
3
7.89%
TOTAL
34
100%

Fonte: Clóvis Massaud (1999)

 

4.7. Motivograma (segundo as necessidades humanas de Maslow)

A busca constante, perene e segura do ideal de gestão tem sido a tônica dos cientistas que direcionaram seus talentos em prol da administração. De forma que essa árdua tarefa de otimizar a vida organizacional, dentre elas as cooperativas de trabalhadores, contém em seu âmago a contribuição de engenheiros, administradores, psicólogos, economistas e outras ciências que compõem o mosaico do conhecimento humano. Assim sendo, os fatores motivacionais , e aqui adentrando na àrea da psicologia organizacional, foram passíveis de estudos tendo como sistema caudatário as motivações que levam o indivíduo a realizar-se, inclusive, profissionalmente. Dentre os pensadores que nortearam suas atividades em prol daqueles fatores, encontramos Maslow. Sua Hierarquia das Necessidades Humanas , ainda que considerada obsoleta por alguns cientistas da àrea comportamental, tem colaborado no sentido de melhor compreender a ambiência comportamental interna das organizações e tentar humanizar a empresa que, normalmente, até então, direcionava suas preocupações calcadas nas tarefas e na estrutura orgânica.
No quadro a seguir identificamos as necessidades prioritárias das cooperativas de trabalhadores passíveis da pesquisa. No item onde constatou-se a predominância de necessidades fisiológicas e de segurança no trabalho (entende-se como cooperados) ,destinado a conclusões, retomaremos o assunto

NECESSIDADES
NÚMEROS ABSOLUTOS
PERCENTUAIS
%

Fisiológicas
10
26.5%
Segurança
12
31.5%
Sociais
06
15.75%
Auto-estima
06
15.75%
Auto-realização
04
10.5%
TOTAL
38
100%

Fonte: Clóvis Massaúd - 1999

 

5) Conclusão da Pesquisa do Perfil das Cooperativas de Trabalhadores


Poderíamos sintetizar a pesquisa com uma colocação já manifesta em 1995 através de um artigo nosso publicado pelo CEDOPE - Centro de Documentação e Pesquisa da UNISINOS onde , naquela oportunidade diziamos que "O debate em torno da gestão cooperativa gravita em função do futuro cooperativo" (Massaúd-1995)
Considerando a pesquisa efetivada nas 38 cooperativas de trabalhadores da Região Metropolitana de Porto Alegre, abrangendo 2.894 associados, torna-se evidente, em função da diagnose levantada, que afigura-se como problemático elegermos uma determinante ou exclusiva situação do sistema cooperativo laboral. Dentre elas cabe perguntar: é realmente uma questão estrutural ou conjuntural? Se é uma ação pouco contundente das Federações e Organizações Regionais? Ou, finalmente, se se trata de gestão inadequada? Os indicativos aflorados na pesquisa nos indicam que, a predominância da gestão inadequada supera os demais quesitos questionados.
Falar em gestão implica hoje em inovação. A renovação de procedimentos na gestão parece ser a tônica emergencial. Todavia, para se adotar uma postura de renovação precisa-se de estratégias que se adaptem às forças imprevisíveis que estão atuando. Isto é, as probabilidades. A renovação de direção abrange duas premissas: 1ª - o princípio da autonomia dirigida e, 2ª , o decisório (envolvendo as pessoas para a tomada de decisão ).

Deve-se salientar que três indicadores impedem uma cooperativa de se renovar e isto foi nitidamente emergente na pesquisa realizada:

1- alto nível de política interna, incluindo aí um percentual significativo e preocupante de uma cultura organizacional DIRETIVA, acrescido da falta de HABILIDADE DOS EXECUTIVOS;

2- baixo nível de trabalho em equipe e significativo índice de fatores desmotivacionais. Constatou-se que as necessidades FISIOLOGICAS e de SEGURANÇA somaram 58%. O que reflete o grau de insatisfação do grupo de associados;

3- nenhum senso de direção participativa. Ou seja, os presidentes das cooperativas de trabalhadores , participantes da pesquisa, praticamente adonaram-se da cooperativa

Isto posto, trazendo-se para o lado pragmático da gestão cooperativa, o perfil de gestão deve passar por uma reformulação prioritária.

O presidente de uma cooperativa em geral e uma cooperativa de trabalhadores em particular, não deve exercer funções executivas. Deve fazer que as macro políticas da cooperativa sejam postas em prática. As funções executivas deve ser atribuição especifica de um executivo profissional. À este cabe a tarefa de fazer com que a cooperativa desenvolva seus planos de ação .

Porém, e isto também ficou evidenciado na pesquisa, não basta a contratação de um executivo profissional. A administração se dará em parceria com o Conselho Fiscal e o Conselho de Administração, aos quais caberá a contratação e supervisão de uma auditoria/consultoria e a implantação da função do controller.

Em paralelo, o presidente, deverá dar liberdade ao executivo para que possa desenvolver suas ações.Vale lembrar que a função do "controller" é fundamental na vida de qualquer organização, incluindo-se aí as cooperativas de trabalhadores. O Controller deve ser visto como função que não estrangula, não sufoca e que reflita as habilidades de dirigir.Outro aspecto que deve ser observado é um treinamento básico para ambos os conselhos (fiscal e administração) através de noções preliminares sobre contabilidade e administração. Não poder-se-ia deixar de levantar a questão dos associados/trabalhadores. Num primeiro momento, quando o desemprego torna-se uma constante cruel na vida do desempregado , ele, ao associar-se a cooperativa quer, deseja prioritariamente, atender as necessidades básicas da família. Porém, com o passar dos meses ao dar-se conta que não tem direito a fundo de garantia, férias e décimo terceiro e , em certas situações, é meramente controlado por um ex empresário (ou seja, um falso cooperado), a apatia passa a ser companheira diária desse associado. Para tanto , é imperioso a adoção de duas ações imediatas. Que seja usado um critério rigoroso na criação da cooperativas de trabalhadores, principalmente no que concerne a seus dirigentes/fundadores e , simultâneamente que os futuros cooperados sejam devidamente esclarecidos acerca da tipologia organizacional que irão fazer
parte. Em derradeira colocação, mas não menos importante, a moderna gestão cooperativa de trabalhadores deve considerar os fornecedores, os clientes, os concorrentes e acima de tudo os associados. Mas, a ação que ora se impõem é de tornar a gestão ágil , com liberdade de ação para um executivo profissional, cabendo a direção a função recíproca de tratar das macro-políticas da cooperativa, além de ordenar um trabalho sistemático de consultoria e controller.

Estas premissas , a nosso ver, são ações que deverão ser implantadas nas Cooperativas de Trabalhadores da Região Metropolitana de Porto Alegre e refletem o resultado da pesquisa efetuada sobre o patrocínio da ULBRA - Universidade Luterana do Brasil.

Outrossim, confirmando que as cooperativas de trabalhadores podem ser uma alternativa para o desemprego, desde que bem gerenciada, deve-se salietar que aqui mesmo na Região Metropolitana de Porto Alegre, temos um exemplo insofismável que as cooperativas de trabalhadores podem dar certo. Trata-se da Cooperativas dos garis de Porto Alegre que reúne o pessoal que atuam na limpeza urbana da capital gaúcha.

Finalmente, esperamos ter contribuído com subsídios para uma avaliação mais contundente do segmento centrado nas cooperativas de trabalhadores, ou, em derradeira hipótese, alertamos para o atual perfil das cooperativas de trabalhadores da Região Metropolitana. de Porto Alegre.


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