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A relação da indústria com o meio ambiente através dos processos produtivos e dos produtos

Caio Marcello Recart da Silveira

Doutorando em Gestão Ambiental, Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção e Sistemas, UFSC e-mail: marcello@eps.ufsc.br


Resumo

A indústria através de seus processos e produtos tem a possibilidade de oportunizar melhores práticas na utilização dos recursos naturais e, com isto, possibilitar um reaproveitamento das matérias-primas necessárias ao desenvolvimento das atividades produtivas que objetivam o atendimento das necessidades humanas sem, contudo, continuar a degradar exaustivamente o meio ambiente natural.

PALAVRAS-CHAVE: processo produtivo, produtos, meio ambiente, indústria.


1.Introdução

O objetivo deste estudo desdobra-se sobre as temáticas subjacentes a processos e produtos, suas complexidades e características no relacionamento industrial com o entorno envolvido, sendo este caracterizado pelo meio ambiente e a sociedade.

No momento em que se fala de processos e produtos apresenta-se a oportunidade de caracterizá-los, pois, são estes os enfoques a serem discutidos ao longo do texto. O primeiro, processos produtivos, refere-se àquelas técnicas com que são fabricados os mais diversificados bens, e, o segundo, relaciona-se aos bens fabricados pelas mais diferentes organizações com o objetivo final de atender as diversas necessidades da sociedade.

Atualmente a preocupação ambiental apresenta-se como uma condição mercadológica de sobrevivência empresarial e, neste cenário competitivo, produtos e processos apresentam-se como elementos-chave para o preenchimento e satisfação destas exigências de mercado.

Os processos, seus produtos e a interação com o meio ambiente e a sociedade apresentam-se como elementos determinantes na relação indústria-meio ambiente, cujos locais críticos de interface são representados pelos pontos onde acontecem as gerações de resíduos, tanto no interior das empresas quanto no lado de forras destas, aqui representados pelas atividades produtivas dos fornecedores e no momento de utilização ou consumo pelos clientes e o descarte final ou o reaproveitamento num determinado processo produtivo.

2.Processos, produtos e resíduos

A necessidade em conhecer os acontecimentos organizacionais é primordial para a melhoria contínua, fundamental na busca de competitividade em um determinado setor da atividade econômica, bem como a manutenção desta posição de mercado. Este conhecimento, segundo Davenport e Prusak (1998), está presente em todos os momentos da organização, quer sejam representados por rotinas, práticas, documentos, normas e processos organizacionais.

Dentro desse enfoque que aborda o conhecimento organizacional apresenta-se como oportuna a conceituação de processo.

Processo é um conjunto de atividades estruturadas e medidas destinadas a resultar num produto especificado para um determinado cliente ou mercado. Os processos são a estrutura na qual uma organização faz o necessário para produzir valor para os seus clientes. Uma importante medida é a satisfação do cliente com o produto desse processo. Assim, deve ser projetado para produzir resultados que satisfaçam às exigências do cliente. (Davenport, 1994)

Com base no exposto percebe-se alguns elementos fundamentais, como a relação com a geração do produto que tem de satisfazer as necessidades dos clientes bem como a preocupação ambiental existente em face do relacionamento indústria-meio ambiente e suas decorrências.

Harrington (1993) define gerenciamento de processos como uma metodologia sistemática para auxiliar uma organização a fazer importantes avanços na maneira de operar seus processos empresariais. É composto por um sistema que ajuda a tornar as operações da empresa mais simples e corretas, assegurando, ao mesmo tempo, que os clientes internos e externos passem a receber produtos ou serviços de qualidade excepcional.

Entre os principais benefícios esperados com o gerenciamento de processos pode-se esperar os que se seguem:

· Possibilitar o conhecimento das operações; · Aperfeiçoar os fatores críticos;

· Aumentar a satisfação dos clientes; e,

· Alocar recursos para as atividades consideradas críticas.

Em relação a fatores críticos temos nos resíduos gerados em decorrência dos processos produtivos e os produtos decorrentes uma questão vital para as organizações e a sociedade. A interface entre indústria e meio ambiente, caracterizada pelos pontos de contato oriundos da geração de resíduos, aqui entendidos como geradores destes os fornecedores e suas atividades produtivas, a própria empresa transformadora e os consumidores finais para a qual destina a sua produção e com os quais, fornecedores e consumidores, interage continuamente buscando proporcionar uma qualidade de vida, em todos os seus aspectos, cada vez melhorada para as mais diferentes sociedades.

A natureza utiliza plenamente os seus mais diferenciados recursos, não gerando resíduos e rejeitos, cujos mesmos não sejam contínua e ciclicamente aproveitados pelas suas diferentes comunidades.

O enfoque de um melhor aproveitamento dos mais diversos resíduos num processo produtivo, minimizando os impactos ambientais, pode também ser verificado nas palavras de Pauli (1996, p.118):

Qualquer forma de dejeto tem que converter-se num insumo com valor agregado e numa matéria-prima para outro ciclo de produção. Assim é como a natureza dispõe seus dejetos e é a única forma de como podemos assegurar um processo industrial sustentável a longo prazo.

Um processo produtivo que procura eliminar todas as formas de desperdício (ou uma grande parcela destas) apresenta-se como um esforço persistente para a redução de custos através da utilização prolongada de um mesmo recurso, minimizando a extração de outras matérias-primas, até o esgotamento nas possibilidades de reutilização ou reciclagem.

O conhecimento tecnológico e suas limitações, num determinado momento histórico e evolução cronológica subsequente, acarretaram diferentes maneiras de desperdício que, face a necessidade sempre crescente de consumo e sua indução, contribuíram para a degradação ambiental. Neste processo tecnológico evolucionário tem-se, cada vez com maior intensidade e abrangência, perspectivas de integração industrial com o advento de novas metodologias enfocando um enfoque sistêmico entre diferentes indústrias.

A relação indústria-meio ambiente, e todas as suas relações sócio-econômicas, tem a possibilidade de buscar uma interação cada vez mais incrementada onde um resíduo de produção possa vir a participar como insumo em outro processo produtivo. Em relação a isto, Pauli (1996: 114) apresenta o que se segue:

A indústria deve estar disposta a reconsiderar a atual seleção de matérias-primas, a repensar os processos de produção e de distribuição, e de estar pronta para comprometer-se em busca de uma produção com emissões zero.

Esta utilização dos recursos naturais pelos diferentes processos produtivos deve estar afeta a uma visão conservacionista - utilizar um determinado recurso natural num processo fabril sem prejudicar a sua renovação ou auto-sustentação - onde a utilização racional destes pressupõe o uso de técnicas que venham a permitir a perpetuação dos mesmos.

A dinâmica das comunidades (biótica-física-antrópica e o relacionamento entre estas) oportuniza a possibilidade de sustentabilidade ecológica que pode ser obtida por meio da Gestão Ambiental, entendida esta como a perspectiva que, através dos mais diferenciados procedimentos, proporciona o atingimento de objetivos vinculados a conservação dos meios biótico e físico, assim como das sociedades que destes dependem.

Os processos produtivos podem ser modificados em virtude de determinadas necessidades que podem ser representadas por mudanças tecnológicas nos equipamentos e na adequação a melhorias no tratamento das emissões, bem como no atendimento a especificidades ambientais quando do projeto de um novo produto e representado pelo "design for environment"(DFE).

Os produtos devem atentar para aspectos como a importância dos materiais utilizados na sua concepção e os seus respectivos atributos que venham a atender aspectos de utilidade, custos, confiabilidade e impacto ambiental, entre outros. O relacionamento com os fornecedores, através de um esforço conjugado, pode vir a proporcionar o acesso a fontes de materiais reciclados, e, com os consumidores, pode-se efetivar uma relação que busque a otimização dos produtos antes do descarte final, ou seja, por intermédio de embalagens retornáveis e de informações relacionadas a temáticas ambientais.

O desafio empresarial prende-se ao fato de que é necessário continuar a satisfazer as mais diversas necessidades humanas e, concomitantemente, buscar um desenvolvimento sustentável onde o meio ambiente se apresente como elemento fundamental a ser conservado e reaproveitado cada vez mais nas suas mais diferentes formas de utilização.

A figura 1 apresenta as diferentes variáveis que interagem com uma organização.


 

3.Conclusões

Este estudo abordou a temática sobre processos e produtos apresentando a relação existente entre indústria e meio ambiente e os decorrentes impactos ambientais decorrentes das atividades transformadoras.

O desenvolvimento humano acarretou uma gradativa degradação do meio ambiente representada pelas diferentes formas de poluição e uma decorrente perda de qualidade de vida.

Com base nisto apresenta-se a possibilidade de intervir nos processos produtivos objetivando minimizar a geração de resíduos e emissão de poluentes que, conforme foi demonstrado ao longo do texto, apresentam-se como elementos críticos de um determinado processo fabril de transformação.

A possibilidade de proporcionar um meio ambiente de melhor qualidade, sob o enfoque do desenvolvimento sustentável, apresenta-se como o elemento motivador mais importante na busca de melhores práticas empresariais com o intuito de incrementar a relação desenvolvimento humano e meio ambiente natural.

4.Bibliografia

CAIRNCROSS, Frances. Meio ambiente: custos e benefícios. São Paulo: Nobel, 1992.

DAVENPORT, Thomas. Reengenharia de processos: como inovar na empresa através da tecnologia da informação. Rio de Janeiro: Campus, 1994. 391p.

DAVENPORT, Thomas; PRUSAK, Laurence. Conhecimento empresarial: como as organizações gerenciam o seu capital intelectual. Rio de Janeiro: Campus, 1998. 237p.

GONÇALVES, José E. L. A necessidade de reinventar as empresas. Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v.38, n.2, p.6-17, abr./jun. 1998.

HAMEL, Gary; PRAHALAD, C.K. Competindo pelo futuro: estratégias inovadoras para obter o controle do seu setor e criar os mercados de amanhã. Rio de Janeiro: Campus, 1995. 377p.

NOVAES, Antonio Galvão N.; ALVARENGA, Antonio C. Logística aplicada: suprimento e distribuição física. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 1994.

PAULI, Gunter. Emissão zero: a busca de novos paradigmas: o que os negócios podem oferecer à sociedade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.

ROMM, Joseph J. Um passo além da qualidade: como aumentar seus lucros e produtividade através de uma administração ecológica. São Paulo: Futura, 1996.


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